terça-feira, 1 de dezembro de 2015

ESCREVER ATÉ MORRER

Este é o último texto que vou escrever durante muito tempo. Não é o último texto que vou escrever durante muito tempo, é o último texto que vou escrever aqui durante muito tempo. Vou continuar a escrever, vou obrigar-me a escrever mesmo que tudo o que escrevo me pareça mau. Escrevo e deito tudo para o lixo. Tenho o cesto cheio de papéis. Tenho sacos cheios de papéis à espera que eu os leve para o contentor. Tenho o chão cheio de papéis. Tenho a casa cheia de papéis que atiro para o chão. Quando me irrito apanho-os e atiro-os para dentro de um saco plástico. Tudo se amontoa pela casa. Parece que vou morrer sufocado num monte de papéis. Já nem desligo a música nem os candeeiros. Apenas ando pela casa, aos pontapés aos papéis que se amontoam pelo chão, a acender cigarros para encontrar outros encostados aos cinzeiros. Desliguei o telefone. Desliguei-me das pessoas. Às vezes durmo no chão. Acordo no chão sem saber onde estou.
– As coisas não estão fáceis, Miguel,
digo em voz alta enquanto olho para o tecto. Estou deitado no tapete. Afastei a mesa e deitei-me no tapete, debaixo da mesa não há papéis. Lembro-me da minha médica hoje,
– o Lexapron não funcionou, o Prozac não funcionou, o Zoloft não funcionou, o Proximax não funcionou e o Seroxat não funcionou.
São nove e meia da manhã. Dormi duas horas. Ontem dormi três. Não sei como consegui acordar.
– Sabes que Descartes morreu porque a rainha Christina da Suécia o obrigava a dar-lhe aulas às cinco da manhã?,
digo eu.
– Cala-te, Miguel. Isto é sério.
Ela está de mau humor. Deve estar com o período.
– Sabes uma coisa, é normal que as pessoas te chamem misógino.
– Eu disse aquilo em voz alta? Pensava que estava a pensar.
– Miguel, acorda, isto não é uma daquelas coisas em que tudo acaba por acabar bem por muito mal que as coisas corram. Estamos a falar da tua vida.
Depois começa a estalar os dedos à minha frente.
– Estás a ouvir-me?
 Olho em volta enquanto ela olha para mim.
– Estou aqui,
diz ela.
– E Descartes morreu de pneumonia. Pára de achar que toda a gente é estúpida,
diz ela.
Depois pergunta-me o que é que tenho feito. E depois eu digo-lhe que tenho tentado escrever, que tenho deitado papéis para o chão e que talvez uma vez ou outra tenha passado à porta de tua casa para fumar uns 20 ou 30 cigarros.
– Uma vez ou outra?
Eu olho para a janela atrás dela. Não vejo o Sol. Só vejo o céu encoberto e as nuvens. Tento encontrar uma forma qualquer nas nuvens, uma qualquer, mas é tudo tão uniforme que só consigo ver uma massa cinzenta que não acaba.
– Não, não é uma vez ou outra. São todos os dias. E acho que ela nem sequer lá está.
A minha médica olha para mim. Eu estou a olhar para o tecto deitado no tapete. Vim para casa.
– Pára com isso. Segue em frente,
disse ela.
– Para onde?,
disse eu.
Estou deitado no tapete. Estou a olhar para o tecto. Estou a pensar que a vida é um sítio cheio de papéis que se amontoam pelo chão. Estou a pensar que tenho de parar de escrever para começar a escrever. Estou a pensar que sinto a tua falta. Estou a pensar que não posso morrer assim, deitado num tapete a pensar em ti. Estou a pensar que tenho de me levantar daqui, que tenho de me levantar daqui antes que morra.
 – Levanta-te antes que morras, Mike,
ouço-me dizer,
– acredita no que todos te dizem, ela não te merece. 

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