segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

WEAPON OF CHOICE

Nunca escrevi a canivete, nem nas mesas nem nas árvores. Aliás, uma das coisas que mais estimei na vida foi uma máquina de escrever que a minha mãe me ofereceu quando eu tinha uns 16 anos. Ainda por cima não era uma máquina de escrever qualquer, era uma smith corona com um pequeno processador de texto incorporado que permitia escrever umas mil palavras que depois eram dactilografadas automaticamente, com margens justificadas e tudo - tecnologia de ponta, portanto.
Até essa altura escrevia à noite sentado na secretária do meu quarto. Escondia os papéis rabiscados e no dia seguinte tentava decifrar a minha própria caligrafia. Achava que uma máquina de escrever me daria a autoridade de um escritor, mas depressa percebi que, neste campo, as coisas nunca seriam simples. Para começar, o anúncio de "ultra-silenciosa" era manifestamente publicidade enganosa, a madrugada e os vizinhos que o digam. E depois, bom, digamos que o desafio de conseguir escrever uma frase sem falhar uma única tecla raramente foi alcançado. Lembro-me sobretudo da imensa desilusão que senti quando pousei pela primeira vez a minha smith corona na secretária. Tinha a certeza que de imediato me sairia a imortalidade pelos dedos, mas não saiu nada. 
Os anos seguintes foram um pouco mais produtivos, comecei romances, contos, poemas e guiões. Acho que nunca acabei nenhum. Um dia peguei nessa "obra incompleta" e mandei tudo para o contentor, um gesto a puxar para o dramático, mas que eu defendi como uma necessidade de começar do zero.
Depois vieram os computadores. Primeiro as "torres" e depois os portáteis, quatro no total. Não sei quantos milhares de páginas perdi desde que comecei, mas para terem uma ideia, só descobri o dropbox há dois anos e nunca soube o que era um backup, e talvez nem seja preciso um bom psicólogo para explicar as razões deste desleixe.
Lembrei-me disto tudo por duas razões, primeiro porque estou a escrever este texto num pequeno aparelho a que se designou iPhone, segundo porque estou a trabalhar num texto, camilo e fanny  (1957) sobre o trágico triângulo amoroso entre Camilo Castelo Branco, Fanny Owen e José Augusto Pinto de Magalhães. Não é o trabalho em si nem a acção da peça que vêm ao caso, antes o facto de ter descoberto que a autora, Manuela de Azevedo, de 104 anos, ainda escreve.
De maneira que quando a encontrar em Fevereiro, a ver se não me esqueço de lhe perguntar se também tem uma smith corona, é que eu ando com saudades da minha e nem sei onde está.

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