segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

MEDUSA

– Sentimentos. Chamamos-lhes sentimentos mas devíamos dizer enganos. Chamamos-lhes sentimentos mas devíamos dizer ilusões. Porque só o engano e a ilusão podem manter alguém tão enganado e iludido durante tanto tempo. Só o engano e a ilusão podem fazer com que alguém não perceba quem tu és, só alguém enganado e iludido poderia acreditar que és outra coisa. Gostava de ser só engrenagens, gostava de ser só um mecanismo obrigado a obedecer a um determinado compasso ritmado, porque assim não me teria perdido no caminho, assim não me teria enganado nem iludido. Mas agora que percebo quem tu és, agora que percebo o que me fizeste e o que me estás a fazer, já não tenho necessidade de sentimentos, posso ser apenas engrenagens, e olhar para ti e ver quem tu és. Estás só a gozar comigo, e eu não gosto disso. Agradeço-te por me teres feito ver isso, agradeço-te por me teres feito perceber a verdade, e a verdade é que as únicas coisas que me deste foram enganos e ilusões. Por isso, vai-te foder. Tem uma vida boa e não te lembres de mim. Queres um conselho? Não voltes a fazer isto com ninguém, não deves brincar com as pessoas, com os sentimentos das pessoas. Francisco, devo alguma coisa?
– Não,
disse o Francisco detrás do balcão,
– está tudo pago.
Olhámos um para o outro, eu e o Francisco, enquanto o homem se levantava do balcão, abria a porta e saía para o frio da noite sem olhar para trás. O bar estava quase vazio, só nós os três e um casal sentado atrás de mim que nem deu pela discussão. Ela ficou sentada a olhar para a garrafa de cerveja,
(não gosto de mulheres que bebem cerveja da garrafa)
é nova, é bonita, tem um ar indefeso e parece que a qualquer altura vai começar a chorar.
Eu tinha vindo de Lisboa, da festa de anos do João Cachola, e achei que era boa ideia beber um café antes de continuar a trabalhar numa peça que não consigo escrever. 
– Desculpem,
disse ela depois de uns minutos.
– Não tem mal,
disse o Francisco.
Eu não disse nada, estou sentado na outra ponta do balcão a ler o jornal. Depois levanto os olhos e olho para ela, que continua fixada na garrafa de cerveja. É muito nova e muito bonita. Ela deixa a garrafa e olha para mim e sorri,
– desculpa por aquilo.
Eu abano a cabeça como quem nem sequer sabe do que ela está a falar e ela levanta-se, vem sentar-se ao meu lado.
– Desculpa, posso sentar-me ao teu lado?
– Claro,
digo eu.
– Preciso de falar com alguém, preciso de dizer o que sinto, de abrir a minha alma, mesmo que seja a um desconhecido, preciso que alguém me ouça. Podemos conversar? Preciso de ti.
Ela está sentada ao meu lado. Está a sorrir. Pôs a mão no meu braço. Eu estou a olhar para ela.
– Não,
digo eu,
– eu sei quem tu és, Medusa.
Paguei e levantei-me. Antes de abrir a porta, para o frio da noite, sem me voltar para trás, lembro-me das palavras que o homem lhe disse e de como eu já as ouvi no passado, de como já me disseram a mesma coisa no passado.
Abro a porta. Deus, o destino ou o universo estão a rir-se.

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