– you know
how sad I am?,
perguntou o Neil ao telefone,
– I’m as sad
as one can be.
E por isso peguei no carro e fui até Cascais, perguntar ao Neil
o que se tinha passado sem lhe fazer qualquer pergunta, porque não somos homens
de fazer perguntas, somos homens de ficar sentados a olhar em frente com os
cotovelos apoiados no balcão e o olhar intermitente entre a rapariga que nos
serve whisky e o whisky.
É terça-feira. O Neil tem ali um concerto dois dias depois,
há não sei quantos anos que o Neil tem ali um concerto às quintas-feiras, há
quatro anos que o Neil tem ali um concerto à quinta-feira, chamam-lhe a quinta-feira
do Neil, pagam-lhe cem euros mais tudo o que ele conseguir beber. O Neil diz
que é um bom negócio,
– it’s a good deal, I get to drink a lot.
O Neil diz que foi aqui que tudo começou, exactamente onde
estamos sentados, ele a cantar no palco que vai ser sempre um palco improvisado
e ela a falar sentada ao balcão com o professor de educação física com uma
deficiência na fala.
– Later she
told me that she first kissed him right here where we are, while I was singing Nirvana’s
About a Girl over there. Yeah.
I didn’t noticed it. I was over there, singing. And I didnt’t see a thing. And then I went to her, I was taking
a break, and I shook his hand. I shook his fucking hand.
O Neil diz que ela mudou, que houve um dia, ainda em Nova Iorque,
em que ela mudou. Estavam os dois sentados no chão e quando ele olhou para ela,
percebeu que ela tinha mudado, não percebeu porquê, nem o que aconteceu, mas
naquele momento soube que não havia nada a fazer, que era uma questão de tempo
até ela dizer,
– tu és ridículo,
como ela lhe disse uns meses depois, já em Cascais, quando
ele se ajoelhou aos pés dela e lhe disse,
– don’t leave me,
depois de ela lhe contar como tinha beijado o professor de
educação física com uma deficiência na fala na última quinta-feira.
O Neil está bêbado, o Neil está a começar a ficar muito
bêbado e a dizer as coisas que os bêbados dizem,
– she’s one
in a million, man, you don’t understand,
e não percebo mesmo porque de tudo o que ele me conta esta
gaja só me parece uma vaca ordinária que merece um par de bofetadas logo pela
manhã pela merda que há-de fazer de tarde e um chuto no cu ao final da noite. E
o Neil atravessou meio mundo por ela. E o Neil está com a cabeça enterrada num
balcão por causa dela. E o Neil continua a cantar todas as quintas-feiras,
– I need an
easy friend
na esperança que ela entre pela porta do bar e se atire para
os braços dele e lhe diga,
– desculpa, enganei-me.
Olho para ele. Olho para a rapariga do bar e peço mais dois.
Ele insiste em pagar. Eu tenho pena dele e não quero ter pena dele. Vou dizer qualquer coisa mas ele
adianta-se,
– I know
what you’re going to say, my friend, you’re going to say, you’ve made your bed,
now lie in it. Yeah. I’ve heard that one before. Well, you know something? I sleep
on the floor. That’s right, I sleep on the floor. How about that? Now you go
home and write on your fucking computer that I sleep on the floor. You do that,
my friend. I’m going to fuck that girl over there, and you’re going to go home
and write about me. That’s what you do, right? I’ll see you tomorrow. I’m drunk
and I know that I’m drunk, but it’s ok, it's ok 'cause it’s always about a girl, Mike, it’s
always about a girl.
O Neil quase cai quando se levanta do balcão. Vai ter com
uma irlandesa roliça que dança sozinha e que o beija passados trinta segundos.
É tarde. Cá fora, enquanto fumo um cigarro e pondero a hipótese de ir até ao
carro debaixo de chuva, uma francesa pergunta-me as horas.
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