sábado, 3 de maio de 2014

O QUE FICOU POR DIZER

O meu computador está cheio de cinza e tabaco. Não, não é isso. Quero dizer que as teclas estão cheias de cinza e tabaco. Devia estar a trabalhar, mas não estou. Devia estar a dormir, mas não estou. Devia estar a fazer tantas coisas, mas não estou. Quero dizer qualquer coisa que não seja óbvia para não ser óbvio.
Vou mudar de assunto.
O ICTUS acabou e acabei o CASSIOPEIA. No outro dia fui a um ensaio. Gostei tanto. Estava nervoso. Os actores no fim disseram que estavam nervosos por eu lá estar, mas eu devia estar mais, não por duvidar deles, mas por duvidar de mim. Duvidamos sempre do que fizemos, se deixarmos passar algum tempo. Acho que não me vou meter mais nos ensaios, eles estão bem sem mim.
Dei aulas de manhã e dei aulas de tarde. Estranha expressão: «dar aulas». Afinal, damos o quê? À tarde falei sobre Ibsen. Não simpatizo com ele, demasiado certinho. Sou do clube do Strindberg, dos que fazem primeiro e pensam depois, ou dos que não pensam sequer, ou dos que pensam fazer uma coisa e depois fazem outra. É indiferente, corre sempre mal.
Agora estou às voltas com o Valle-Inclán e com as DIVINAS PALAVRAS. Ainda não gosto do texto, mas é porque ainda não me enterrei nele. Espero que seja por isso. Demora tempo até me enterrar num texto, e não o tenho.
Não gosto de espanhóis. Mas isso não é verdade. Afinal gosto de espanhóis porque me lembrei de Cervantes, de Unamuno, de Goya, de Buñuel, de Calderón. Estou só a continuar a escrever, a dizer qualquer coisa. Isto não quer dizer nada.
À noite fiz o jantar. Antes, dormi no sofá porque estava cansado. Depois jantei e fui trabalhar, mas falta-me tempo. Falta-nos sempre tempo. Falta-nos tempo para tudo, apenas nos resta fugir do óbvio.
Vou voltar atrás.
O ICTUS acabou e nem tive tempo de sentir o vazio dessa ausência. Todas as pessoas gostaram: umas muito, outras pouco, outras nada. Mas é assim mesmo. Nós gostámos, é o que me interessa. Entretanto estava a escrever o CASSIOPEIA. Quase morri a escrever esse texto, uma frase que é uma péssima estratégia de marketing porque agora toda a gente acha que eu estou a insinuar que é brilhante e genial, ou que não é nem brilhante nem genial, uma vez que eu não morri. E depois, quando forem ver, vai ser o mesmo, umas hão-de gostar muito, outras pouco e outras nada.
Vou regressar ao princípio.
Volto a dizer, desta vez em voz alta,
– tenho as teclas cheias de cinza e tabaco.
É uma maneira de não dizer o que quero, de fugir do assunto. Podia ir trabalhar, podia ir dormir, podia fazer tantas coisas. Mas não, parece que o mundo é apenas estas teclas cheias de cinza e tabaco e todas as coisas que eu não disse porque não as quis dizer.
Percebes?

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