quarta-feira, 4 de novembro de 2015

POLIMERIZAÇÃO

Ontem, depois do almoço fomos os três ver pessoas mortas. A princípio elas não acreditaram que eram de facto cadáveres, mas depois de alguma insistência perceberam que os ossos eram ossos, que a pele era pele, que os músculos eram músculos e que os órgãos eram órgãos, mas mesmo assim mantivemos quase sempre uma distância de segurança em relação aos corpos. Só às vezes, quando um de nós dizia,
– não quero acabar assim,
ou
 – será que ela era bailarina?,
ou
– malta, isto era uma pessoa,
é que ganhávamos consciência de que aquilo à nossa frente teve uma vida, um trabalho, amou, sonhou, sofreu e depois morreu e transformou-se no que estava à nossa frente, apenas um corpo despido, realmente nu.
O que mais nos impressionou foram os fetos. Quatro semanas, cinco semanas, seis semanas, sete semanas, oito semanas. Não é fácil perceber que começámos assim e que conseguimos chegar até aqui, que estamos a fazer qualquer coisa, nem que seja pensar que não é fácil perceber que começámos assim.
À noite sonhei que estava a conduzir um carro. O sonho começava assim, eu dentro de um carro a acelerar, a acelerar sempre numa estrada mal iluminada. Nada acontecia a não ser isso. Eu acelerava e o carro ia mais depressa, sempre assim durante muito tempo, cada vez mais depressa, como se o acelerador não tivesse fim, como se por muito que eu esticasse o pé houvesse ainda um espaço por preencher que me fazia ir mais depressa. Depois bati contra uma parede. Não morri. Não acordei. Continuei a acelerar e o carro continuou a bater na parede. E assim estive até o despertador tocar. Foi uma noite longa.
Acordei e li um artigo sobre o tempo. Parece que há novas teorias sobre o tempo. Alguém levantou a hipótese de que o tempo vai parar daqui a uns milhões de anos, que se vai transformar em espaço e que vai parar. Não sei como é que o tempo se vai transformar em espaço, mas parece que é possível que isso aconteça. E quando isso acontecer o tempo vai parar de existir. Vai deixar de existir uma distância entre o dia de hoje e o de amanhã, como se apenas saíssemos de um sítio e chegássemos a outro sem termos percorrido um caminho, como se tudo se passasse ao mesmo tempo porque o tempo morreu e se transformou em espaço.
Depois fui dar aulas. À tarde falei do Livro de Job a propósito do Rei Lear. Os miúdos começam a perceber quando é que eu vou dizer uma coisa que os vais destruir. Não os destrói, claro que não os destrói (só um bocadinho) mas ficam com o olhar de quem diz,
– isto vai dar cabo de mim,
ou
– não digas o que vais dizer.
Enquanto estava a falar de Job lembrei-me dos cadáveres à nossa frente, da maneira como nenhum deles sorria, de como nós caminhávamos no meio deles e de como parámos, como o tempo.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

THE LONG ROAD AHEAD

E de repente estamos em Novembro. E de repente está frio. O tempo move-se a diferentes velocidades consoante o ritmo dos sentimentos. Parece que passaram anos desde que comecei a riscar os dias num calendário na parede, e parece que passaram dias desde que deixei de o fazer. Ontem estávamos os três a olhar para o mar, quase levávamos com uma onda, lembrei-me dos Tindersticks, de uma música dos Tindersticks que ouvi pela primeira vez há quase 20 anos. Fui a um concerto deles no Coliseu e não me consigo lembrar com quem, não me consigo lembrar quem é que abracei e beijei nessa noite enquanto o Stuart Staples (que está tão velho) dizia,
– Funny how everything makes you feel low when you’re already low.
Esqueço-me das coisas.  Não me lembro quem abracei e beijei nessa noite e nem me lembro se cantaram essa música. Mas agora gosto de pensar que tocaram essa música e que beijei e abracei alguém. Fomos para casa e pu-la a tocar. Acho que a ouvimos umas dez vezes seguidas. Quando ouviste o despertador no final disseste,
– isto és tu,
e eu ri-me.
À noite fomos ver o Ricardo III e gostámos. Bebemos uma cerveja e voltei para casa. Sentei-me e olhei para as minhas orquídeas novas, que comprei esta semana. Ainda não gosto delas. Parecem falsas, feitas de plástico. Mas já as reguei, mesmo que ainda não consiga falar com elas nem beijá-las. Olhei para a parede e pensei,
– não vou conseguir fazer isto,
mas vou.
Acordei cedo. Deixei-me ficar na cama a olhar para o relógio durante meia hora, a ver o tempo a passar e eu deitado durante meia hora. A minha casa parece maior do que é, acho que sei porquê. Queria ter explicado ao Tiago o porquê dos Domingos serem tão longos mas não lhe disse nada. A tarde passou. Em vez de ouvirmos músicas antigas dos Tindersticks vimos um filme. Lá fora chovia. Às vezes chovia.
À noite sentei-me ao balcão e pedi um café. Não sei porque bebo café. Acho que é o hábito. Um homem estava sentado ao meu lado. Já tinha bebido demais e estava a querer falar com as pessoas. Perguntou-me,
– sabe como é que se chama um boomerang que não volta para trás?
Eu disse,
– não,
sem sequer ter ouvido o que ele disse. Mas depois ouvi o que ele perguntou. E percebi que não sabia a resposta, que não sabia mesmo a resposta, que não havia nada que eu pudesse dizer que fizesse sentido. Olhei para ele e pareceu-me que o conhecia. Mas não o conhecia.
– Não sabe como é que chama um boomerang que não volta para trás?
– Não,
repeti,
– não sei.
– Então ouça-me com atenção porque vou dizer-lhe a coisa mais importante que ouviu na vida. Tenho estado a olhar para si, tenho estado a observá-lo, a beber o seu café, com um ar de superioridade sobre nós todos – a arrogância não lhe fica bem – pois agora vou dizer-lhe para olhar para mim – olhe para mim –  olhe para mim e perceba a simplicidade das coisas: não sabe como é que se chama um boomerang que não volta para trás?
– Não, não sei como se chama um boomerang que não volta para trás.
– Chama-se um pau. Um boomerang que não volta para trás é apenas um simples e inútil pau.
E depois pagou, levantou-se e foi-se embora.
E eu fiquei sozinho, sentado ao balcão.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

LEVIATÃ

Caro Will,
não sei o que dizer, as coisas vão como vão, podia dizer que uns dias melhor e outros pior, mas hoje não sou capaz de dizer isso porque não vejo maneira de parar, parece que não paro de cair e que ao longo dessa queda apenas penso na ideia do embate. Eu sempre a cair sem um chão onde eu possa despedaçar-me.
Hoje fui a Lisboa ver uma peça tua. Estava esgotada. Deve ser agradável ter uma peça em cena esgotada 400 anos depois de se morrer, e a sala nem sequer é pequena. E não havia mesmo bilhetes, uma hora antes de começar já tinham levantado todas as reservas, estava mesmo esgotado. Fiquei contente por ti.
– É o dia do espectador,
disse a senhora.
Eu nem sabia que havia um dia do espectador, mas ainda bem que há. Fomos jantar. Cada vez gosto menos de Lisboa, não tenho sítio para estacionar o carro e há gente a mais. Não gosto de pessoas. Mas comemos um cozido à portuguesa que apesar de não estar bom me soube bem e depois voltámos para o Estoril. Durante o caminho ela não disse nada. Acho que estava preocupada comigo.
Amanhã tenho aulas às 11h00. Vou tentar não chegar atrasado. Não sei mesmo o que dizer porque apesar de saber que este dia ia acontecer mais tarde ou mais cedo, a verdade é que não estava preparado para ele. Se calhar é para as coisas mais óbvias que estamos menos preparados.
E é isso, Will, ponho os meus phones, olho para a parede e tento continuar. E continuo. Continuo a continuar. Na verdade é bastante simples. Não é preciso acordar no sofá, no chão ou com um polícia a dizer,
– está tudo bem?.
às sete da manhã porque adormeci mal estacionei o carro. Não é preciso nada disso.  Não é preciso chorar para sofrer. Não é preciso matar-me para morrer.
E é isso, tento fingir que está tudo bem, tento fazer de conta. As pessoas dão-me palmadas nas costas e dizem que eu fiz as coisas bem, que o problema não é meu. Mas, explica-me, tu que inventaste o Homem antes do Homem saber quem era, explica-me uma coisa,
– porquê?

terça-feira, 27 de outubro de 2015

AQUI E AGORA

Há muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo e eu tenho de conseguir manter-me acordado. Não quero dizer com isto que vou adormecer, não estou à espera de cair para o lado cheio de sono e acordar um dia depois sem saber onde dormi, mas estou a tentar escrever três peças, duas, uma, pelo menos, e continuo a não conseguir começar. Olho para a parede
(quem conhece a minha casa sabe do que estou a falar)
e continuo a olhar para a parede e não consigo começar. Às vezes vou pôr-me a olhar para o espelho muito tempo, outras começo andar pela casa de um lado para o outro. A minha vizinha de baixo disse no outro dia que às vezes ouvia alguém a andar de saltos altos a altas horas da noite, acho que ela acha que eu trago prostitutas para casa de madrugada, mas na verdade são só os meus sapatos a ecoarem na tijoleira,
(tenho saudades da quinta)
sou só eu a andar de um lado para o outro, sem ideias, ou com demasiadas ideias, ou a fingir que tenho ideias. Pareço um fantasma a arrastar-me pela madrugada, devia tirar os sapatos ou ficar quieto, sem me mexer, a olhar para a parede, para os post-it na parede, à espera de começar ou de não começar porque alguém me disse alguma coisa.
As pessoas dizem-me coisas. As pessoas olham para mim e dizem-me coisas.
O meu gestor de conta disse-me,
– és a melhor pessoa que conheço,
isto foi há muito tempo.
O meu psicólogo disse-me,
– foda-se, Miguel, não digas isso,
e o Pedro gritou comigo e disse que eu estava a ser parvo, que as coisas não eram assim
(estávamos a falar de fichas de casino – é tudo metafórico)
Entretanto, a minha médica perguntou-me,
– como correu?,
e a Madalena disse em inglês no facebook,
– estás cada vez melhor e mais triste,
portanto não deve ter corrido muito bem.
Eu sei. Eu sei disso tudo.
(e agora um longo silêncio)
(que continua)
(e mais)
Vou ao supermercado comprar uma pizza, quando vou ao supermercado comprar uma pizza sei que estou à beira do suicídio.
(isto é um exagero literário)
Depois vejo um filme do Wim Wenders e a meio digo,
– não tens medo das palavras.   

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O QUE ACONTECE À ESPERANÇA NO FINAL DA NOITE

– Desculpa,
disse eu.
– Não tem sido fácil.
O sol batia por detrás da tua cara e eu lembrei-me da última vez em que estivemos na mesma situação. E tal como dessa vez, calei-me. Já não há nada a dizer. E lembro-me do Tim Crouch, de uma pergunta que não é uma pergunta, 
Acordei e olhei para o relógio. Como é que pode ser tão tarde? Depois lembrei-me que ontem o tempo andou para trás. Mas mesmo assim parece-me tarde, que mesmo com o tempo a andar para trás tudo passa demasiado depressa. Levantei-me e fui almoçar. É uma coisa lógica que uma pessoa deve fazer, levantar-se e ir almoçar. O John Grant lançou um álbum novo há uma semana e ainda não o ouvi com atenção. Ponho os meus phones, carrego no play e vou almoçar. Está a chover. Ultimamente parece que está sempre a chover. Levo um caderno e uma caneta, mais um livro de entrevistas com o Jaques Le Goff. Estou à procura de ideias mas não me consigo concentrar. O tempo começa a passar demasiado depressa e já estou a ver um jogo de futebol. Sou do tempo em que um Benfica x Sporting não passava na televisão. Ouvia o relato com o meu primo Marco, devia ter uns 10 anos e a coisa era tão confusa que quando ouvíamos,
– Goooooooooooooooolo!,
ficávamos em suspenso sem saber qual das equipas tinha marcado. O tempo passa. Ele hoje vive em Moçambique, tem duas filhas. Eu continuo na mesma, porque apesar de ter uma televisão à minha frente nunca consegui perceber qual das equipas tinha marcado,
– Foi golo de quem?,
perguntei ao Pedro, que ontem me disse, quando o tempo estava a voltar para trás, que eu devia sair do buraco onde estou, que ninguém quer ter nada a ver com um tipo que está num buraco tão fundo como o meu. E eu sei que ele tem razão. E estou a rir-me disso. É estranho. São agora 03:43 e finalmente consegui acalmar-me. O John Grant continua a tocar nos meus ouvidos, e ele diz,
Geraldine, just tell me you didn’t have to put up with that shit,
numa referência a Geraldine Page, que se fartou de fazer Tennessee Williams, que a Eunice Muñoz dizia ser a minha cara chapada. O tempo passa. Não sei por que razão me lembro destas coisas a esta hora, mas ajuda lembrar-me destas coisas a esta hora. O tempo passa e o tempo não volta para trás. Somos apenas
(vou escrever uma daquelas frases que fica na memória)
somos apenas uma memória.
– Vai dormir,
diz alguém, talvez seja eu.
É estranho. Não pensei que fosse tão difícil. As pessoas riem-se de mim e eu não me importo. As pessoas olham para mim e sinto um misto de pena e . As pessoas olham para mim e eu estou a pensar no John Grant, em qual das equipas marcou golo, na resposta a uma pergunta que não é uma pergunta, ou no sol a bater atrás da tua cara, e eu a dizer-te,
– desculpa. Não tem sido fácil.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O JOGADOR

É uma doença antiga. Entra-se no edifício e não há relógios nem janelas. Não se vê nada a não ser luzes e panos de veludo. Eu entro no edifício e lembro-me de Alexei Ivanovich. Entro no edifício e sei que vou perder, que não há maneira de ganhar, mas entro na mesma.
– Gabo-te a paciência, Miguel Graça,
disse o meu gestor de conta enquanto me apresentava uma lista de dívidas e credores.
É uma doença antiga. Ainda não encontraram a cura. Tal como Alexei Ivanovich a minha preferência vai para a roleta. Talvez seja a ideia de que o universo cabe em 36 números mais o zero, e de que podemos encontrar o rumo certo das coisas, o padrão original que desencadeia tudo o que há-de surgir, essa força ou essa ilusão de que somos capazes de controlar o destino, que somos capazes de prever o momento a seguir e o outro e o outro, mas não controlamos nada.
– Tens de sair daí, ir para outros lados, conhecer outras pessoas,
disse o meu gestor de conta enquanto me apresentava uma lista de dívidas e credores.
Mas eu não quero ir para outros lados nem conhecer outras pessoas. Estou bem aqui mesmo que não esteja bem. Estou bem aqui porque é onde estou e com o tempo acabamos por aceitar que estamos onde estamos porque foi aqui que viemos dar. E se foi aqui que viemos dar então há que aceitar que o fizemos e o que fomos são as razões que nos trouxeram até aqui.
Paro e penso que nem sempre é assim. Da última vez que entrei num casino não sei bem como lá fui parar. Estava descansado, acho que a ver uma peça de teatro, não me lembro qual, nem sei bem se seria uma peça de teatro, talvez fosse outra coisa, mas estava com mais gente à minha volta, e, de repente, sem saber como, estava diante de um pano verde com um monte de fichas à minha frente. Gosto de arriscar. E há 36 números mais o zero. 28. Apaixonei-me pelo 28. E por isso comecei a apostar no 28.
– Nada mais,
e eu apostava no 28.
– O “K” é uma letra no vosso alfabeto?,
– não,
respondi eu a uma alemã enrugada vestida de preto enquanto apostava. E depois o tempo começou a passar. E eu a apostar cada vez mais. E cada vez mais. Sempre a apostar no 28, como se os outros números fossem invisíveis. O tempo passou. E depois apostei tudo. Peguei em todas as fichas que me restavam e quando tive a certeza que era o momento certo apostei tudo no 28. E depois perdi.
– O que é que vais fazer agora?,
disse o meu gestor de conta enquanto me apresentava uma lista de dívidas e credores.
Quando perco tudo a primeira coisa que me vem à cabeça são aqueles versos do Kipling,
If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss
mas é mais fácil recitá-los de cor do que cumpri-los. E por isso fiquei muito tempo a olhar para a mesa e para a roleta, os números a sair e eu à espera do 28, como se fosse um eléctrico ou um autocarro que apenas se tivesse atrasado. Até que as pessoas começaram a dizer,
– vai para casa,
ou
– o que é que estás a fazer?
E depois vou para casa. E em casa, sozinho, sento-me numa cadeira e acendo um cigarro. Talvez ponha música a tocar e me sirva uma bebida. Há pouca luz. E nessa altura, sentado a meia-luz com um cigarro nos lábios e um copo na mão, é impossível não pensar,
– o que é que eu fui fazer?
Mas não importa. O 28 não saiu, mas podia ter saído, e eu podia ter conseguido, eu quase podia ter conseguido. Pelo menos arrisquei, pelo menos tentei. Não fiquei de fora a ver os números a sair. Não fiquei a olhar para a roleta, olhei para um número, para o 28, apaixonei-me por esse número e apostei tudo nele. Não consegui, apostei na hora errada, no sítio errado, mas pelo menos tentei, pelo menos sei que tentei, que apostei tudo e que tentei.
– Então por que razão estás assim?,
perguntou-me o meu gestor de conta.
E eu olhei para ele e depois olhei para mim enquanto ouvia na minha cabeça uma voz mecânica que dizia,
– nada mais.
– Gastei as minhas fichas todas,
disse eu.
– Não tenho mais fichas para gastar.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

ADÃO E EVA

O Mito da Imaturidade Feminina é o título provisório da tese de doutoramento do meu psicólogo. São 730 páginas mais ou menos aborrecidas, como ele lhes chama, e que podiam reduzir-se a 34 segundo as contas que ele fez, mas há que pensar na seriedade da coisa e na edição em livro (pela Dom Quixote em Abril de 2016),
– hoje em dia com menos de 500 páginas ninguém te leva a sério,
dizia-me ele na sexta-feira ao jantar enquanto me entregava uma cópia impressa,
– eu não vou ler isto, tenho muito que fazer, ainda ontem me atrasei no supermercado porque uma velha me passou à frente, passou-me à frente com um saco atafulhado de conservas e congelados e estive uns 15 minutos à espera porque ela não conseguia pôr as compras no saco e eu só pensava, raio da velha, quem me dera que ela caísse aqui redonda no chão, mas se ela caísse redonda no chão chamavam o 112 e eu nunca mais saía dali, se calhar ainda tinha de ajudar ou prestar declarações, e eu não quero ajudar nem prestar declarações, por isso mais vale que a velha morra em casa a meter os congelados no congelador ou as conservas no armário, mais vale isso do que vê-la a cair aqui redonda no chão, com certeza que se ela caísse redonda no chão eu começava a assobiar e sem que ninguém notasse deixava as compras numa prateleira qualquer e ia-me embora à procura de outro supermercado que vendesse gelo e whisky. Não tenho tempo para ler isto.
– Isso está cada vez pior,
disse ele enquanto apontava para o meu olho esquerdo.
Estávamos a comer hambúrgueres. Não sei porquê mas fomos parar a uma casa de hambúrgueres. Não gosto da palavra hambúrgueres, não gosto de escrevê-la, parece que tem letras a mais. Hambúrgueres.
– Há uma anedota antiga,
disse ele,
– o primeiro capítulo é sobre isso, sobre essa anedota, não é o primeiro capítulo, é o prefácio, talvez lhe chame preâmbulo, mas seja como for resume a minha tese.
E ele começou a contar a anedota e eu comecei a ouvir. Adão estava sozinho no Éden, isto foi no princípio dos tempos, e Adão andava de um lado para o outro com os olhos no chão. Deus perguntou-lhe,
– o que se passa, Adão?
– Sinto-me sozinho. Tenho dentro de mim uma dor tão grande que não a consigo conter. Todos os segundos que passam parecem uma eternidade, como se sentisse em todos os momentos apenas a espera de acontecer alguma coisa, mas como nada acontece a dor aumenta e a solidão também. Estou sozinho a arrastar-me pelo paraíso, e por isso o paraíso é o inferno. Estou sozinho.
– Tenho a solução para o teu problema, Adão,
disse Deus.
– Vou criar uma mulher a partir de ti. E ela não vai ser apenas bela e inteligente, ela vai compreender-te e vai estar ao teu lado e ser o apoio que precisas para a tua solidão. Ela vai amar-te e dar-te-á a felicidade porque terá tanto de terna quanto de racional, e mesmo nos momentos de maior tristeza ela terá sempre um sorriso para ti.
 – Vamos embora!,
disse Adão,
– que parte de mim precisas para criar a mulher?
– Um braço, uma perna, meio fígado, um pulmão e parte da cabeça.
– Isso é muito,
disse Adão,
– o que é que se arranja com uma costela?
Ele fartou-se de rir. O meu psicólogo é daquelas pessoas que se farta de rir com as próprias piadas.
– Essa é da salão,
disse eu enquanto pedia a conta. Mas não sei, talvez me sinta um pouco como Adão, ou então, como me disse hoje a Madalena, talvez apenas me sinta perdido.