terça-feira, 21 de julho de 2015

O HOMEM MAIS ALTO DO MUNDO

– Hoje é um bom dia para morrer,
gritam elas a plenos pulmões. É de madrugada, toda a vizinhança as ouviu, eu estou a uns cem metros de distância e começo a rir-me. Talvez alguém tenha acordado e de certeza que em casa lhes vão perguntar que grito foi aquele tão inesperado com o sol quase a nascer. Queria ter pulmões para lhes responder. Mas fico calado, limito-me a rir. Não me estou a rir delas, estou a rir-me porque estou feliz. Percebi isso há bocado, sentado à luz das velas, esta vai ser uma daquelas alturas em que vou lembrar-me que sou feliz. E na verdade não é preciso muito, nem as velas são necessárias, basta dizermos a verdade, basta dizermos que
– hoje é um bom dia para morrer,
porque se tivermos feito o suficiente, se tivermos feito o suficiente para sermos o que somos e sabermos o que somos, então valeu a pena e não seremos apenas sonhadores, seremos alguém que caminhou pelo mundo com a consciência que há alguém ao nosso lado.
E se um dia chegarem a casa e tiverem nas mãos o cheiro a eucalipto, mesmo que não gostem do cheiro a eucalipto, lembrem-se que, no final, apenas isso interessa, apenas isso valerá a pena.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

BURACO NEGRO

 – Isto é tudo culpa tua, Miguel Graça.
gritou a Fernanda Neves pelo menos duas vezes durante os ensaios aos meus ouvidos. Referia-se à minha versão do Peer Gynt, que se eu não a tivesse conseguido (boa palavra) fazer, não estaríamos aqui, às tantas da manhã, fechados no teatro. Não é verdade, usaríamos outras palavras de outras pessoas, mas compreendo o que ela quis dizer. No outro dia falámos de máscaras e de cuspidelas. Ela dizia-me que eu andava amargo, que o Monte Estoril me fazia mal, que os meus textos andavam amargos. Eu respondi que era uma persona, que não era eu, que eram cuspidelas que mandava às tantas da manhã.
– Cuspidelas amargas,
disse ela.
Estou em frente ao espelho a olhar para mim. Às vezes há noites em que me deixo ficar desta maneira. Não muito tempo, apenas o suficiente para desistir de me lembrar de como eu era. E nunca me lembro. Parece que sempre tive esta cara, que sempre tive este corpo e esta figura. Mas isso não é verdade. Apenas não me lembro.
A minha médica telefonou-me hoje,
– como está esse coração?
– Ainda bate.
E continua a bater. Estou a olhar para o espelho. É tarde. Está escuro. Estou a olhar para mim.
– Isto é tudo culpa tua, Miguel Graça.

terça-feira, 14 de julho de 2015

ORQUÍDEAS

Estou indeciso. Não sei o que fazer. Um Porsche, uma Playsation ou um gato? O gato havia de me fazer companhia, só que não quero deixá-lo sozinho o dia todo. Mas talvez ficasse feliz quando chegasse a casa, e eu com isso tivesse a certeza do que a Raquel me disse antes de ir para Índia,
– Há muitas pessoas que gostam de ti, Miguel.
Os gatos não são pessoas, mas contento-me com pouco, e, vendo bem as coisas, se calhar mais vale o amor de um gato do que o amor de uma mulher. Não. 
Com um Porsche aumentava o estilo uns 500%, 1000% se partisse o farol direito, mas a gasolina está caríssima e a EPTC tem uma vala enorme à entrada e não me apetece deixar o Porsche estacionado cá fora com medo de o partir ao meio a atravessar o portão. Além disso, não sei se me apetece deitar fora as minhas economias num carro, talvez faça mais sentido continuar a poupar, nunca se sabe se não ficamos como a Grécia.
Quanto à Playsation, é tão barata quanto viciante, e eu não gosto de vícios.
Não era nada disto que eu queria dizer. Não é nada disto que eu quero dizer. São 05;08. Quando acabar de escrever vai ser mais tarde. É tarde demais. Tu estás a dormir.

domingo, 5 de julho de 2015

ECLIPSE

Ela está olhar para ele. Ela está a sorrir. Ela diz,
– Não digas nada agora, estás transparente.
Ele continua a olhar para ela. Ia falar mas fica calado. Ia dizer uma coisa, duas coisas, três coisas, mas não diz nada. Mantém-se sentado a olhar para ela. Há um silêncio. Ele desvia o olhar. Olha para o chão, para a parede, para a janela. Olha lá para fora, para a rua. Pensa se ela continuará a olhar para ele enquanto ele olha lá para fora. O sol nasceu há muito tempo. Está calor. Ele não consegue dormir. Ele nunca consegue dormir. Ele acende um cigarro porque nestas situações não há nada a fazer a não ser acender um cigarro, e depois volta a olhar para ela porque por muito que tente manter o olhar fixo no chão, na parede ou lá fora, ele sabe que não consegue deixar de olhar para ela.
Ele está cansado. Sente que vai morrer a qualquer momento. Lembra-se de ter escrito isso uma vez e de ter deixado uma pessoa a chorar por causa disso. Ele volta a olhar lá para fora, lembra-se de Rimbaud.
Sur l'onde calme et noire où dorment les étoiles,
La blanche Ophélia flotte comme un grand lys,
Flotte très lentement, couchée en ses longs voiles...
—On entend dans les bois de lointains hallalis...
Ele nem sequer gosta de Rimbaud, mas lembra-se dele. E ela não tem nada de Ofélia. Estúpidas associações, pensa ele. Estúpidas associações. Ele continua a olhar lá para fora, está tão transparente que todos percebem o que ele ia dizer. E por isso cala-se. E por isso continua a olhar lá para fora. Está calor. O sol vai alto. Ele não consegue dormir.

domingo, 28 de junho de 2015

TEXTO BREVE SOBRE DESISTIR

Que não é fácil escrever, todos os que escrevem sabem. Há muitos que escrevem e não sabem disso, mas façamos de conta que eles não existem (que país higiénico teríamos!). Não vou dizer nomes, obviamente: mas lembro-me, de repente, do Peixoto, que escreve tão bem como fala, do Tavares das metáforas idiotas (refiro-me a Gonçalo M; o filho de Sophia só conheço como comentador da vida político-futebolística) ou do Tordo, que é uma espécie de chinelos do chinês. Todos ganham prémios e escrevem à bruta, e ainda bem para eles, mas quanto a esses façamos questão de fingir que não existem e que por isso a minha primeira frase não se aplica a eles. Aliás, faço um mea culpa, confesso que nunca li nada do que publicaram até ao fim, apenas aguentei, no máximo, 20 páginas, um erro meu, obviamente, mas defendo-me com Schopenhauer:«o que dizem ultrapassa o meu fraco entendimento:talvez tenham qualidade, mas não consigo compreendê-la e renuncio assim a qualquer juízo».
Voltando atrás, há depois uma outra dificuldade acrescida, que tem a ver com o que se pode ou não escrever porque outros hão-de ler isto, uns por curiosidade, outros por gosto, e outros ainda por desgosto, mas entre todos esses há muitos que me conhecem e que podem associar a isto ou aquilo. E assim, aviso que este texto que ainda não começou – isto é apenas o prefácio – pode ter quatro interpretações diferentes, três delas têm a ver com a minha vida pessoal (ou profissional, mas a minha vida pessoal confunde-se com a profissional), e apenas uma terá a ver com uma interpretação metafísica. Serei suficientemente ambíguo e, no final, apenas eu saberei sobre o que escrevi, e ainda que todos tenham uma diferente perspectiva, duas perguntas cairão sobre as vossas cabeças: quem tem razão? O que é que ele quis dizer realmente com aquilo?
– Apaga o que acabaste de escrever. 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

TOMORROW, AND TOMORROW, AND TOMORROW

Caro Will,
a vida vai andando com altos e baixos, nada de diferente do habitual. Acabei de tirar o post-it da parede que dizia,
– falta um dia.
Afinal não aconteceu nada de importante, nem para o mundo nem para mim. Afinal só faltava um dia para acabar de te traduzir. E, sim, tinhas razão, ganhaste. Esmagaste-me completamente. Cada frase que passa é uma derrota. Derrota atrás de derrota. Não é fácil. Contei vinte e dois versos em que ganhei, e mais oito em que talvez esteja empatado, foi só o que consegui. Mas consegui, Will, consegui. Só que desta vez não sinto nada. Nem alívio nem felicidade. Sinto-me apenas mais velho e mais cansado. Estou muito cansado, Will, como se tudo o que fiz tivesse sido feito agora e todo o peso das coisas desabasse sobre mim. E estou a envelhecer. Estou a descobrir que estou a ficar velho. Daqui a dez anos não me reconheço, daqui a dez anos já não te consigo traduzir e vou viver com a sensação de que tudo passou e que não há nada para fazer. Sabes, estava a olhar para o post-it na parede e estive quase por substituí-lo por um que dissesse,
– é hoje.
Mas não é hoje, Will, pois não? Nem amanhã, nem amanhã, nem amanhã. Começo a achar que tudo passou, que estou a ver os meus dias como se fosse outra pessoa, não sei como mas o futuro deixou de ser uma coisa distante, de repente, sem querer, já tudo aconteceu.
E é isso, a vida vai andando com altos e baixos, mas hoje, Will, hoje parece que é um precipício sem fim.

P.S. Manda um abraço ao Ibsen, diz que sinto falta dele e que ele não se preocupe, ninguém reparou.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

MELANCOLIA

Ando assim, distraído. Agora deu-me para andar a pé, o que é um problema quando a regressar para casa dou por mim na Parede ou em Algés, obrigado a chamar um táxi que me leve de regresso ao Estoril, a insultar-me a mim próprio porque estou a gastar dinheiro em táxis quando estava ao lado de casa. Mesmo assim, suponho que seja uma vantagem voltar a pé, se voltasse de carro dava por mim no Algarve ou em Espanha, e não havia táxi que me valesse.
Quando entro em casa falo com as minhas orquídeas, às vezes dou-lhes um beijo se estiver melancólico. Quase sempre estou melancólico. Acho que estive a vida toda melancólico. Mas às vezes estou mais. Quando estou melancólico e já é tarde sento-me à secretária e escrevo qualquer coisa como estou a escrever agora. Depois carrego no "publicar" e arrependo-me sempre, Nunca devíamos publicar nada, Tenho tido menos gostos e menos leitores, suponho que a maioria não seja melancólica, ou que não goste da melancolia. Eu gosto da palavra,
– m e l a n c o l i a
como uma espécie de janela onde as orquídeas nascem e continuam a nascer.
Ando assim, distraído. Fiz a última alteração no Peer Gynt,
                                                  (Solveig, tira-me deste caminho,
                                                  Que eu morro sem ti e morro sozinho.)
e continuo a lutar contra o Macbeth, que todos os dias me ganha e todos os dias me atrasa,
– desta vez não estás a ajudar, Will.
Ando assim, distraído. Os dias consomem-se como carvão e as noites são ilusões que me levam a caminhar até à Parede ou Algés. Estou a envelhecer mal, sem noção das coisas. Mas gosto das minhas orquídeas, gosto de as beijar quando chego a casa melancólico.