segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A MINHA VIDA NORMAL

Deito-me e acordo. Levanto-me da cama e sento-me à mesa. Gosto de estar sentado à mesa. Daqui a nada tenho aulas. Vou fumar um cigarro. Gosto dos meus amigos. Tenho saudade dos meus amigos. Ao almoço vamos comer um cozido. É Domingo. Não gosto dos Domingos. Gosto dos Domingos. Rimo-nos todos juntos. Vemos vídeos no telemóvel. Ela chora. Ele também. Eu não. O teatro é a nossa vida. Queremos voltar para trás. Somos amigos. A vida não presta. A vida é uma festa. Escrevo em verso. Porquê? Porque te pediram. Não vou escrever hoje. Demasiado cansado. À noite é sempre mais fácil. Um cobertor. Uma almofada. E depois a urgência de não dormir. Quem é que quer dormir? Mas daqui a nada tenho aulas. Não é insónia. Gostava de fazer um parágrafo. Ouve música. Play. Ludovico Einaudi. Cliché. Ninguém acredita em ti. Olha em frente. Uma cortina. Branca. Falámos de quê? É um texto curto. Tens de o acabar. Não. Não fiz nada. Há dias em que não se faz nada. Não se consegue fazer nada. Olha em frente. Já olhei. Uma cortina. Branca. Tenho saudades de ter frio.Tenho medo de voltar a ter frio. Os teus alunos vão ler isto. E então? Deixa-me falar. Então diz qualquer coisa. Não.

sábado, 18 de outubro de 2014

SEM TÍTULO

A propósito de literatura, dizia Oscar Wilde que se dividia em duas categorias: a boa e a má.
A propósito de livros, esteve há uns dias em Portugal um senhor de nome Romain Puértolas (ou Puertólis, não consigo decifrar a minha caligrafia) que vendeu, só em França, 300.000 exemplares do primeiro romance, já traduzido para tudo o que é língua, e que apresenta um título auspicioso: A Incrível Viagem do Faquir que Ficou Fechado num Armário do IKEA. A entrevista despertou-me interesse porque Puertólas (ou Puertólis) afirmava com orgulho que tinha escrito a história num único mês, duas horas por dia, no metropolitano, uma hora para o emprego e outra para casa, usando o iPhone como processador de texto. Puertólas (ou Puertólis) é um fanático da escrita, diz que escreve a qualquer altura e em todo o lado, nas camisas com canetas stencil, no espelho da casa de banho com batom. Imagino-o a escrever a sua magnum opus sentado na sanita em rolos de papel higiénico. Este evidente caso de mania recordou-me o intragável Quills de Philip Kaufman, em que o sempre ilustrativo Geoffrey Rush se esforçava por credibilizar um Marquês de Sade muito pateta que aparentemente não conseguia sobreviver sem câibras nos dedos.
A propósito, encontrei hoje na Fyodor Conde Belisário de Robert Graves, na edição da Estúdios Cor de 1964. Custou-me dois euros e ainda tem as páginas por cortar, como se fazia antigamente. 
De maneira que vou largar o iPhone que também uso para escrever, mas só algumas destas crónicas e pegar no corta-papéis, é que este ao meu lado esteve 50 anos à espera de ser lido.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

TEXTO BREVE SOBRE AS RAZÕES DA MINHA AUSÊNCIA (MESMO NÃO EXPLICANDO NADA)

Não simpatizo com aquela gente que diz em entrevistas que se não escrevesse morria. Passo meses sem escrever uma palavra e não me faz falta nenhuma. Escrever não é uma droga nem uma necessidade, acho que descobri isso pelos vinte anos, depois de ter passado a adolescência a relatar em cadernos A5 tudo o que não me acontecia. Mas isso são histórias antigas que não interessam,
Muito tempo passou desde a última vez em que publiquei aqui alguma coisa. Algumas pessoas afastaram-se, outras aproximaram-se. A vida foi avançando como avança sempre e eu deixei-me estar, preguiçoso ou misantropo, mas quieto.
Em resumo, senti orgulho e vergonha na mesma medida (isto é mentira, mas é uma boa frase) e continuei a trabalhar no mundo do teatro, o que não sendo óptimo, é agradável.
Estou a escrever uma coisa que ainda não tem título definitivo e que vai estrear lá para Março de 2015.
Lembrei-me de voltar aqui. E aqui estou.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

CASSIOPEIA

Há textos que surgem assim, sem sabermos como. Cassiopeia começou a surgir na minha cabeça depois do David Esteves me ter telefonado a dizer que ele e o Vítor Silva Costa tinham sido informalmente convidados pela Maria João Vicente para apresentarem um projecto para o Try Better Fail Better’ 14 do Teatro da Garagem. Queria saber se eu sabia de algum texto e de algum encenador que lhes servisse. Isto foi no final de Dezembro. Telefonei nesse dia ao Pedro Caeiro que aceitou encenar e que sugeriu o fio do enredo: a morte de um pai e o reencontro de irmãos desavindos. Entretanto, eu ou ele, alguém teve a ideia de haver também uma irmã que se juntasse à história e assim apareceu a Joana Ribeiro Santos.
Prometi entregar-lhes o texto no dia 27 de Março, na estreia de ICTUS, uma peça minha que entretanto estreava no Teatro Experimental de Cascais, e onde o David e o Pedro entravam como actores. Havia protestos, que eu pelo menos podia ir entregando as cenas que estivessem prontas, mas eu convencia-os do contrário com a desculpa os queria concentrados no ICTUS e não no Cassiopeia. Desculpa romba que foi exposta quando apareci nesse dia apenas com a primeira cena e a promessa de que o resto surgiria rapidamente. O resto eram ideias e pessoas que estavam na minha cabeça e em algumas folhas soltas. A versão final apareceu a 30 de Abril, um mês depois, com muita influência dos actores e do encenador, que foram contribuindo directa ou indirectamente para o seu desenvolvimento, e com muitas noites a olhar para o abismo.
Cassiopeia foi o texto mais difícil que alguma vez escrevi, não sei se é o melhor, mas foi o mais difícil. No dia em que o acabei senti-me aliviado por me livrar destes três irmãos. Gosto de os ver no palco, nunca gostei de os ter comigo.

CASSIOPEIA
texto| Miguel Graça
encenação| Pedro Caeiro
interpretação| David Esteves| Joana Ribeiro Santos| Vítor Silva Costa

15 a 18 de Maio
Te
atro Taborda 
Rua da Costa do Castelo, 75
1100-178 – Lisboa
Sala Principal

Quinta a Domingo| 21h30
Reservas e informações| 21 885 41 90 | 96 801 52 51
Preços 10€ (normal)| 5€ (estudantes, profissionais do espectáculo e seniores)
M/ 16

terça-feira, 6 de maio de 2014

OS LOUCOS DANÇAM, NÓS CAMINHAMOS

Há uma palavra para eles: loucos. Mas no Domingo, no TEC, não me pareciam loucos e quis trocar de pele com eles, com alguns deles, com os mais perturbados. Pareciam ser os mais perturbados.
O espectáculo chama-se NOTURNOS* (infelizmente sem o “c”) e à minha frente e de mais uns trinta pares de olhos, os loucos diziam as suas palavras. Os loucos que não pareciam loucos. Alguns não pareciam. Havia seis mulheres e dois homens. O que tanto pode querer dizer que as mulheres enlouquecem mais do que os homens, ou que as mulheres recuperam melhor do que os homens.
Um homem e uma mulher diziam coisas que eu nunca conseguirei escrever. Eram os mais perturbados, pareciam os mais perturbados. Moviam-se lentos. Diziam as palavras como (se eu fosse um deles poderia dizer como). Bataille, Genet e Artaud, curiosamente todos franceses, talvez a França seja a terra da loucura, ainda seja a terra da loucura, foi neles que pensei. Hei-de ir a Paris este Verão, e sentar-me em bancos de jardim onde talvez eles se tenham sentado. Não me lembrei de mais ninguém, Bataille, Genet e Artaud, talvez eles compreendessem o significado daquelas palavras.
Dizia que um homem e uma mulher diziam coisas que eu nunca conseguirei escrever. Ambos lentos. Ambos quietos. Ele, um negro imponente, em cada gesto parecia impedir um ataque ao espectador. Ela era mais complexa. Todas as palavras que lhe saíam da boca pareciam (se eu fosse um deles poderia dizer o que pareciam). Cito de cor, mas não são as palavras certas. As deles eram as palavras certas. Ele levantou-se e caminhou até ao extremo do cenário, lento, disse: «num beco, à noite, olhei para os ratos. E os ratos olharam de volta para mim». Ela, que ainda não se tinha erguido do banco, levantou-se e disse: «o homem feliz estava em casa com a família feliz. Depois levantou-se (foi aqui que ela se levantou) e começaram a crescer-lhe as unhas das mãos e dos pés». Levantou as mãos para nós e continuou. Os loucos foram dançar. Todos juntos. Os loucos a dançar e nós a ver.
Na Grécia Antiga os escravos também eram obrigados ao teatro. E a nós, obrigam-nos a quê? No final, na conversa, um espectador desatento pergunta como chegaram a personagens tão irreais, e uma louca responde que as personagens são eles, que é a realidade deles.
Ser como os loucos. Dizer tudo o que não se consegue dizer. Os únicos escritores de que tenho inveja à minha frente, lentos, anónimos, presos, a dançar. E eu aqui, a fingir que sei as palavras. Não as sei.

*NOTURNOS de João Silva é um espectáculo do Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos.

sábado, 3 de maio de 2014

O QUE FICOU POR DIZER

O meu computador está cheio de cinza e tabaco. Não, não é isso. Quero dizer que as teclas estão cheias de cinza e tabaco. Devia estar a trabalhar, mas não estou. Devia estar a dormir, mas não estou. Devia estar a fazer tantas coisas, mas não estou. Quero dizer qualquer coisa que não seja óbvia para não ser óbvio.
Vou mudar de assunto.
O ICTUS acabou e acabei o CASSIOPEIA. No outro dia fui a um ensaio. Gostei tanto. Estava nervoso. Os actores no fim disseram que estavam nervosos por eu lá estar, mas eu devia estar mais, não por duvidar deles, mas por duvidar de mim. Duvidamos sempre do que fizemos, se deixarmos passar algum tempo. Acho que não me vou meter mais nos ensaios, eles estão bem sem mim.
Dei aulas de manhã e dei aulas de tarde. Estranha expressão: «dar aulas». Afinal, damos o quê? À tarde falei sobre Ibsen. Não simpatizo com ele, demasiado certinho. Sou do clube do Strindberg, dos que fazem primeiro e pensam depois, ou dos que não pensam sequer, ou dos que pensam fazer uma coisa e depois fazem outra. É indiferente, corre sempre mal.
Agora estou às voltas com o Valle-Inclán e com as DIVINAS PALAVRAS. Ainda não gosto do texto, mas é porque ainda não me enterrei nele. Espero que seja por isso. Demora tempo até me enterrar num texto, e não o tenho.
Não gosto de espanhóis. Mas isso não é verdade. Afinal gosto de espanhóis porque me lembrei de Cervantes, de Unamuno, de Goya, de Buñuel, de Calderón. Estou só a continuar a escrever, a dizer qualquer coisa. Isto não quer dizer nada.
À noite fiz o jantar. Antes, dormi no sofá porque estava cansado. Depois jantei e fui trabalhar, mas falta-me tempo. Falta-nos sempre tempo. Falta-nos tempo para tudo, apenas nos resta fugir do óbvio.
Vou voltar atrás.
O ICTUS acabou e nem tive tempo de sentir o vazio dessa ausência. Todas as pessoas gostaram: umas muito, outras pouco, outras nada. Mas é assim mesmo. Nós gostámos, é o que me interessa. Entretanto estava a escrever o CASSIOPEIA. Quase morri a escrever esse texto, uma frase que é uma péssima estratégia de marketing porque agora toda a gente acha que eu estou a insinuar que é brilhante e genial, ou que não é nem brilhante nem genial, uma vez que eu não morri. E depois, quando forem ver, vai ser o mesmo, umas hão-de gostar muito, outras pouco e outras nada.
Vou regressar ao princípio.
Volto a dizer, desta vez em voz alta,
– tenho as teclas cheias de cinza e tabaco.
É uma maneira de não dizer o que quero, de fugir do assunto. Podia ir trabalhar, podia ir dormir, podia fazer tantas coisas. Mas não, parece que o mundo é apenas estas teclas cheias de cinza e tabaco e todas as coisas que eu não disse porque não as quis dizer.
Percebes?

sábado, 26 de abril de 2014

ANA

Eu estava nervoso. A Ana, o Pedro, o Fillol, a Rita e o Sá vieram ver o ICTUS. São os meus amigos mais antigos. Não os vejo durante meses. Aniversários e pouco mais. Gosto tanto deles e de estar com eles. Mas é assim que a vida se faz, cheia de pessoas que não vemos e de abandonos, cheia de recordações que se atiram para uma mesa com um sorriso. E passaram quantos anos, perguntamos a meio da conversa?
Eu não estava nervoso por causa deles, estava nervoso por causa da Ana. 
Namorei cinco anos com a Ana. Mais. Acho que foram cinco anos e meio. 
A Ana é a melhor recordação que tenho. Quando nos decidimos separar, ambos sabíamos por que o estávamos a fazer, e ambos o queríamos fazer. Desses cinco anos e meio que passámos juntos, muita coisa correu mal. Houve muitos gritos, lágrimas e dor. Às tantas já não conseguíamos sequer olhar um para o outro. Hoje não me lembro de como isso aconteceu, nem me lembro de sentir isso. Houve muita ingenuidade. Éramos miúdos a tentar ser adultos. E havia tanta coisa contra nós: a família, os cursos, a rotina. Não estou a dizer tudo. Não gosto quando não estou a dizer tudo. Vou dizer tudo no próximo parágrafo.
Hoje quando me lembro de ti, Ana, só me lembro da tua cabeça no meu colo. É disso que me lembro.
Esta merda de vida que faz de nós estranhos.
Esta merda de vida. 
Fiquei tão nervoso quando te vi. Fiquei tão feliz quanto te vi. Fiquei tão triste quando te vi. Porque não merecemos, pois não, Ana? Não merecemos o que nos aconteceu. E é tão tarde para voltar para trás, não é, Ana? É tão tarde para voltar para trás. Mas podemos voltar para trás, Ana. Achas que podemos? Eu não sei, porque eu não sei nada. Mas tu? Achas que podemos? Achas que ainda podemos?