terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

DESAGRADAVELMENTE ENFADADO

Confesso que esta história das praxes, com debates, artigos e polémicas, me enfada mais do que uma colecção de faiança portuguesa – independentemente do século.
A telenovela foi montada pela comunicação social e nós fomos atrás. Com um típico enredo lento, está cheia de protagonistas rombos e de figurantes coloridos. Nós observamos sentados no sofá e vamos abanando a cabeça para a frente ou para os lados consoante o novo capítulo nos agrada mais ou menos. Volto a perguntar-me se estamos a chegar ao fundo da questão ou se apenas alimentamos o monstro.
Começo por situar o meu percurso enquanto “caloiro”. Vivi essa situação em duas Faculdades muito distintas, na primeira fui sujeito durante um dia àquelas coisas habituais: pinturas, passeios e aulas-fantasma. Chamam-lhe “brincadeiras inofensivas”, eu não gostei e na restante semana não pus lá os pés. No ano seguinte mudei de curso e de Faculdade e, já avisado, mesmo num sítio onde não conhecia ninguém, declarei-me “anti-praxe”. Não me senti nem mais nem menos inadaptado por causa disso, nem houve represálias por não aderir ao que me diziam ser o “espírito académico”, mas nestas coisas, como se costuma dizer, mais vale cair em graça do que ser engraçado, e sei do caso de um colega que, tomando a mesma posição que eu, foi rotulado por uns quantos “veteranos” como uma espécie de proscrito, sendo durante um ano alvo de frequentes insultos e, pelo menos uma vez, agressões. Por isso, quando me dão o argumento de que é tudo uma questão de bom senso, remeto-os para Descartes e para uma verdade que bem podia ser de la Palice: o bom-senso não costuma andar de mãos dadas com uma pipa de vinho.
Poderia terminar por aqui, mas talvez haja quem ainda não tenha percebido: nem o que eu disse, nem o fundo da questão, como lhe chamei.
Cito a agonia do cristianismo de Unamuno: «não foi o tirano que fez o escravo, mas ao contrário. Foi um que se ofereceu para levar aos ombros o seu irmão, e não este quem obrigou a que aquele o levasse». Não será esta uma definição absoluta de um ritual que muitos vêem não como uma humilhação consentida mas como uma forma simples e directa de integração? Integração em quê, pergunto? Na fraternidade da grade de cervejas? No clube da cábula? Na ideia – porque é mesmo só uma ideia – de que pertencem a qualquer coisa, de que fazem parte de um todo e com isso se sentem mais seguros, mais capazes de disfarçar a solidão? Convém talvez perguntar a todos esses jovens o que os motiva realmente, para ver se eles ao menos sabem a resposta, e convém também perguntar aos pais que educação lhes deram para afirmarem comovidos na televisão que os filhos morreram felizes porque morreram trajados. E o outro lado? Dizia o meu amigo Carlos Carranca que em Coimbra cerca de 90% das Repúblicas são hoje “anti-praxe”, não por uma qualquer epifania, mas porque militam na juventude de um partido de extrema esquerda que é contra toda e qualquer tradição. Andamos à procura de uma identidade colectiva, parece-me. E não gosto disso.
Volto a Unamuno: «os Homens procuram a paz em tempos de guerra e a guerra em tempo de paz; procuram a liberdade sob a tirania e procuram a tirania sob a liberdade». Não será também isso que aqui se passa: a procura da estupidez num sítio de saber, a procura do colectivo num sítio que deveria ser de pensamento individual? Já no discurso sobre o filho-da-puta Alberto Pimenta lançava o aviso sobre as nossas Universidades como sítios de excelência para não pensar, com muros altos e “seguidismos” por toda a parte. Afinal, transformámos a Academia e os jovens que a frequentam em quê?
Num excelente ensaio de 1963 (a agressão – uma história natural do mal), Konrad Lorenz concluía que o maior problema do Homem era não possuir uma mentalidade de carnívoro. Os carnívoros têm uma espécie de “válvula de segurança” que – em circunstâncias normais – os impede de matar os elementos da mesma espécie. Os meus cães vivem assim: sempre que o Zucco quer ser o líder da matilha, o Dingo, que é o macho Alfa, mostra violentamente a sua superioridade até que o outro se deita de costas em posição submissa, com a garganta descoberta e as patas no ar. E o Dingo, que é apenas um cão, nunca o agrediu depois disso. Toda a nossa desgraça, diz Lorenz, vem do facto de sermos, no fundo, criaturas inofensivas e omnívoras. Incapazes de matar grandes presas, fomos também incapazes de nos controlar quando aprendemos a fazê-lo.
Não há nada a discutir. Proibir as praxes e expulsar das Universidades quem teimasse em mantê-las seria um sinal de inteligência e civilização, mas, como se tem visto, essas são duas qualidades que rareiam neste mundo, quanto mais neste país.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

AMIGOS DISTANTES

Lembro-me da primeira vez que me senti assim. Foi há quatro anos e eu ia dar aulas no primeiro dia a seguir às férias do Natal, é a única coisa que me lembro desse dia. Quando estava a sair da auto-estrada, o locutor anunciou a próxima música, is anything wrong de Lhasa de Sela, que tinha morrido dois ou três dias antes com 37 anos: cancro da mama. Era de manhã, estava sol e foi daquelas poucas vezes em que quase comecei a chorar, em que me senti sozinho, perdido, incapaz de compreender o que estava ali a fazer, a existência de tudo à minha volta.
Em que momento é que deixamos de acreditar naquela estúpida ideia de imortalidade? Parece que de cada vez que nos morre alguém voltamos a essa certeza, por isso se calhar nunca nos livramos dela.
E estas pessoas de quem gostamos mas com quem nunca falámos? Músicos, actores, filósofos, escritores. Não sabemos nada sobre eles mas vivemos uma vida a ouvi-los, a lê-los, a olhar para eles sem nunca os termos conhecido, e gostamos deles porque de alguma maneira achamos que nos daríamos bem se nos encontrássemos um dia. Ficam connosco. Lembramo-nos da música que estava a tocar quando nos apaixonámos, do filme que fomos ver ao cinema antes de nos beijarmos, de ouvirmos os mesmos discos, de lermos os mesmos livros. Estranhos que entram pela nossa vida e passam a ser amigos de casa. E depois, um dia, eles morrem. E mesmo sabendo que não nos são nada, ficamos tristes, talvez porque não fomos capazes de os ajudar quando eles nos ajudaram tantas vezes.
Quando me sinto assim penso nos dinossauros. Penso muitas vezes nos dinossauros. Não é só nos 75 milhões de anos que nos distanciam deles, mas principalmente nos mais de 130 que por cá andaram. Hoje são fósseis e ossos, nem sequer sabemos de que cor eram, não fazemos ideia, pintamo-los de verde porque a maioria dos lagartos são verdes, mas até podiam ser amarelos ou cor-de-rosa, ou até transparentes. Penso nos dinossauros porque duvido que a humanidade se aguente tanto tempo quanto eles sem nos espatifarmos uns aos outros, basta olhar para o que fizemos até agora para termos uma ideia do que nos pode acontecer, e somos ainda crianças. E depois lembro-me da sonda Pioneer 10, com aquela célebre imagem de um homem e de uma mulher a saudar o Universo, a vaguear sozinhos pelo espaço. Daqui a 75 milhões de anos talvez seja só isso que resta de nós, e talvez uma nova espécie habite este planeta e nos coloque, anónimos, num museu de história natural, sem saber sequer de que cor era a nossa pele.
Estou triste. Sei que é estúpido sentir-me assim, mas é como me sinto. E por falar em amigos que morreram, queria perguntar-te, Will, se as coisas eram diferentes no teu tempo, se éramos mesmo feitos da mesma matéria que os sonhos. É que  parece que hoje somos apenas pesadelos, Will, daqueles que nos afastam do mundo e nos metem uma puta de uma agulha no braço e nos deixam estendidos numa casa-de-banho. Sozinhos numa casa-de-banho aos 46 anos com uma puta de uma agulha no braço, Will.
E não compreendo. A sério que não compreendo.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

MAIS DO MESMO

Quando Descartes, que não era estúpido, escreveu: «o bom senso é a coisa que no mundo está mais bem distribuída, porque cada um pensa estar tão bem dotado dele, que até mesmo aqueles que dificilmente se contentam com qualquer coisa não costumam desejar mais do que aquele que possuem», não estava, de certeza, a pensar em mim (nem na economia das palavras).
Cedo substitui o «conhece-te a ti mesmo» pelo «desconfia de ti mesmo», prática que me leva sempre a fazer exactamente o contrário daquilo que o meu bom senso determina.
Creio que tudo começou ainda na primária, na altura em que os problemas matemáticos envolvem regularmente uma história absurda, do género: «o João bebe dois litros de whisky por dia e só tem em casa copos de 20 centilitros», etc. A perda de fé na minha capacidade de julgamento começou com uma coisa parecida: a professora anunciou à turma que o problema era complexo e que por isso cada aluno deveria escrever a resposta num papel, ir até ela e mostrar-lha, o que logo me fez sorrir e pensar na eminente vitória que me aguardava.
Desta vez uma mãe tinha feito um bolo e cortado três fatias para os seus três filhos: ao João (que acabou mais tarde a beber dois litros de whisky por dia) coube uma fatia de 100 gramas, ao Jorge uma de 1000 decagramas e ao José uma de 10000 centigramas, e a pergunta era a única possível: qual deles tinha ficado com a maior fatia? Não havia dúvidas, não só a senhora tinha uma obsessão com nomes começados por J como, obviamente, tinha calhado ao jovem José uma fatia de bolo enorme. Escrevi o nome no papel, levantei-me e mostrei-lhe orgulhoso a minha resposta,
- Errado.
Os meus colegas levantavam-se e iam até ela. Todos regressavam com o peso desse
- errado
para a carteira.
«Deve ser uma rasteira», pensei. Escrevi «João», num papel e voltei a levantar-me,
- errado.
À minha volta havia olhares tão confusos como o meu.Mas como só sobrava uma resposta adiantei-me a toda a gente e não quis saber de lógica e pensamentos racionais, o que só me enfureceu mais quando a ouvi dizer,
- errado
depois de ter lido o nome «Jorge» no papel.
Tudo aquilo me baralhava. Três respostas possíveis e todas erradas. É nessas alturas em que nos afastamos do instinto e percebemos que só pela análise absoluta das coisas podemos chegar à verdade. O João, o Jorge e o José, três fatias de bolo e nenhuma é maior do que a outra, qual poderia ser a resposta? E foi então que percebi o óbvio, a resposta mais simples de todas e ninguém a tinha compreendido. Levantei-me orgulhoso, encaminhei-me para a professora e entreguei-lhe o papel com a minha última resposta. Quem tinha ficado com a fatia de bolo maior? A mãe, obviamente
Não sei quantos anos se passaram, demasiados, se pensar no assunto. Mas não me esqueço daquele olhar, aquele abanar da cabeça dela como se dissesse: «não há nada a fazer, este é um caso perdido».
E é fácil perceber por que razão faço desde esse dia o contrário daquilo que o meu bom senso me diz para fazer. E desde esse dia que mantenho uma luta permanente dentro de mim. E desde esse dia que... Ainda agora, por exemplo, disse para mim mesmo:
- Miguel, está frio, estás cansado, tens de trabalhar, vamos ficar em casa.
Adivinhem o que vou fazer.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

FANTASIA EM DÓ MENOR

Deus, o destino ou o universo, um deles deve ter um sentido de humor apurado quando se lembra de interferir na minha vida. Sou daqueles que quando têm pressa em sair de casa descobrem muito tempo depois as chaves do carro no congelador, ou dos que se lembram um dia de comprar uma "raspadinha" para ver a velhinha do lado, que entrou dez segundos depois, ganhar o jackpot.
Os outros olham para isto e chamam-lhe coincidências ou distracções, incapazes de compreenderem a presença de uma mão metafísica que me esconde as coisas ou que impede que as velhinhas andem com passo apressado.
A única pessoa que algum dia compreendeu esta situação, e que a declarou como um facto indesmentível e não uma paranóia egocêntrica, foi o meu médico, o doutor Diogo Dingo que, soube hoje, morreu no final de Dezembro do ano passado. Cancro, claro.
Dentro dessa classe de curandeiros, foi o único com quem alguma vez consegui comunicar, não só isso, mas o único que encontrava realmente soluções práticas e eficientes para os meus problemas. Odeio médicos. Disfarçam sempre a incompetência com uma desculpa qualquer: os cigarros, o Mcdonald's, o não participarmos na maratona; tudo lhes garante a impunidade. Uma vez fui a uma consulta de rotina com a nova médica de família e apareceu-me à frente uma rapariga que nem sequer era bonita, passou o tempo a fazer-me perguntas parvas do género:
- O senhor bebe?
- Hmm... Sim...
- Porquê?
Nunca mais a vi.
Com o doutor Diogo Dingo as coisas nunca foram assim. Quando andava ansioso e com palpitações, disse-me para passar a beber os cafés sem açúcar, noutra vez, acometido de uma tosse permanente e de um cansaço ofegante, recomendou-me tabaco de enrolar sem aditivos, e quando me queixei de uma crónica indisposição matinal, receitou-me Canadian Club e proibiu-me aquilo que ele chamava «zurrapa martelada», quer viesse da Escócia, dos Estados Unidos ou da Irlanda.
Um dia sentei-me no consultório e depois dos habituais cumprimentos disse:
- Doutor, não me consigo integrar. Não falo com ninguém.
- Vá dar aulas.
E fui.
Tenho razão quando digo que deus, o destino ou o universo, um deles deve ter um sentido de humor apurado quando se lembra de interferir na minha vida, porque no mesmo dia em que soube da morte deste meu amigo, sou obrigado a estar aqui a corrigir testes que não acabam enquanto o meu computador, neste lugar morto de internet, teima em fazer surgir no canto inferior direito do ecrã uma mensagem intermitente que diz:
- you are not connected.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

VOZES DO PASSADO

«Toda a gente se queixa da sua memória, mas ninguém se queixa da sua inteligência». Eu lembro-me de cada vez menos coisas e estou progressivamente convencido de que tenho razão em tudo, o que pela velha máxima de La Rochefoucauld faz de mim um cretino igual a tantos outros.
Quando temos vinte anos a vida parece um enorme caderno em branco a preencher com sucessos, amores e algumas dificuldades, que por sermos obviamente especiais transformaremos em vitórias. Depois os anos passam e todo o passado se resume a uma vaga ideia do que aconteceu, uma recordação geral de uma série de acontecimentos particulares que nunca conseguimos controlar. Chama-se viver. Vamos andando em frente deixando muitas coisas para trás, e nem sequer pensamos nisso.
As conversas sobre quem somos vão desaparecendo porque a dada altura já não precisamos de ir jantar fora ou ir beber um copo a um bar para ir para a cama com alguém. Deixamos de nos apaixonar e deixamos de falar sobre o que nos aconteceu porque todas as pessoas à nossa volta ou já conhecem as histórias ou estavam lá presentes quando elas aconteceram. Ficamos cada vez mais sozinhos e com isso já não falamos sobre nós, sobre como chegámos até aqui. Conversamos sobre o presente, o dia-a-dia. Actualizamos os que estão à nossa volta sobre o que nos acontece com a regularidade de um jornal, diário ou semanário, e quando as amizades nos afastam alguns meses, somos uma espécie de revista trimestral, que deixa de lado a espuma dos dias e se concentra nos grandes acontecimentos e mudanças que possam ter ocorrido, mesmo que não tenha acontecido nada.
Mas há sempre um dia – que estranho – em que encontramos um rosto familiar na rua, de um velho amigo ou de uma mulher que amámos, e por uns instantes parece que o tempo não é uma linha contínua mas uma fita de Moebius, que estamos no mesmo sítio onde estávamos há não sei quanto tempo e que o passado afinal estava mesmo ali ao nosso lado, tão nítido como no dia em que o vivemos.
Mas é diferente, não é?
E depois de três sorrisos e quatro gargalhadas vem o silêncio, um silêncio que diz que não sabemos com quem estamos a falar, que a pessoa que conhecemos está diferente, está velha, e que por isso também nós devemos estar diferentes e velhos. E então perguntamos: «o que é que aconteceu?».
Mas não é assim. Isto não é nada. Isto sou eu a preparar-me para o que vou escrever a seguir.
Já era de madrugada e eu ia trabalhar numa peça que estou a escrever, apesar de te ter dito que estava a corrigir testes. Depois ouvi a tua voz a dizer: «fala comigo». E eu falei como se não houvesse silêncios entre nós.

sábado, 25 de janeiro de 2014

THE ACT OF ACTING

Passou quase um ano, e foi estranho sentar-me a ver onde é que estavas quando te vi pela última vez, uma curta peça que escrevi para a Lídia e à qual falta um ponto de interrogação no título, como muito bem observaram alguns entendidos.
Não gosto de ver em cena o que escrevo. Fico sempre a olhar para o público, para a reacção das pessoas, oscilo entre Eros e Tanatos consoante os sorrisos ou os bocejos das pessoas. Mas foi bom ver a sala cheia e quase todas as pessoas de pé no final, é uma sensação agradável, mesmo que as palmas não sejam para mim, mesmo que não saibam quem eu sou.
Já não ouvia o texto há quase um ano, e ontem, numa espécie de ensaio geral possível, senti-me na pele de um espectador desatento que não sabe onde está. Não reconheci as palavras, não sabia o que ia acontecer, qual a sequência das ideias e como elas se ordenavam umas à frente das outras.
É quase incestuoso gostar de uma coisa que escrevi e não me lembrar de a ter escrito.
Quase nem me lembro que estivemos um mês em cena no ano passado, no Teatro Rápido.
Foi o único texto que escrevi em que não fui acusado de misoginia.
A acção, que eu julguei simples, trata de uma mulher que prefere sonhar com a materialização do amor da vida dela numa fotografia do que a viver a realidade. As histórias que vai inventando servem para não estar sozinha nessa repetição, mas com isso perde-se na sua própria alteridade porque o mundo do “faz-de-conta” é, afinal, tão real quanto a vida (algumas crianças que assistiram ao espectáculo não tiveram qualquer dificuldade em perceber o texto, ao contrário de muitos adultos, que se baralhavam e perdiam nas muitas efabulações da personagem).
Acho que onde é que estavas quando te vi pela última vez é sobre as pessoas e sobre o teatro.
silêncio
E estamos sozinhos a inventar histórias, estamos sempre sozinhos a inventar histórias, acho que foi isso que quis dizer.
silêncio
Mas não era isto que eu queria dizer. O que eu queria dizer é que ainda podem ver a Lídia a dizer as minhas palavras amanhã (hoje), pelas 22h40 no Espaço Evoé (rua das Canastras, nº 36, Lisboa).

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O QUE FICA NO FINAL?

Enquanto o país se afoga devagar, vamos conversando nos cafés sobre o que verdadeiramente nos apoquenta: a co-adopção, a bola de ouro e a comenda do Cristiano Ronaldo, ou a ida de Eusébio para o Panteão. Pelo meio, atiramos uns insultos a Passos Coelho e Portas, olhamos para a lista dos Oscars deste ano (ou para a dos Prémios Nova Gente) e distraímo-nos da forma que mais nos agrada, seja com a telenovela ou com o último comentário de José Gil num jornal de referência. Mas no final do dia olhamos para o lado com a sensação de que nos está a escapar aquilo que é importante.
No sábado fui finalmente ver Sea Wall (Um Precipício no Mar) de Simon Stephens. Conheci-o há uns anos quando ele veio ver, creio, o último dia de Harper Regan no TNDMII. Por esta altura eu deveria contar uma história divertida que nos tivesse acontecido aos dois, transmitia uma suposta cumplicidade entre ambos e implicitamente teria a autoridade para dizer as maiores baboseiras sobre ele. Mas tal não aconteceu. Falámos no máximo uns cinco minutos antes e depois do espectáculo: eu elogiei-lhe o texto e ele elogiou-me Lisboa como se eu fosse responsável por alguma parte do destino urbanístico da cidade, e foi apenas isso.
Na altura andávamos à procura de textos inéditos em português, e o Luís Barros, que fazia a assistência de encenação e que foi o responsável por este breve encontro, contactou-o uns dias ou meses mais tarde e o simpático Stephens lá nos mandou a sua obra completa por e-mail. Foi assim que li Sea Wall. Na altura ainda falámos em comprar os direitos da peça, mas nunca o fizemos.
A personagem única, Alex, já nem sequer é um homem, é uma coisa destruída. A morte da filha de oito ou nove anos estilhaçou-o mais do que uma bala de canhão. Mas isso ele só dirá no final. Tal como nós, Alex vai falando de outras coisas, de fotografias, de matemática, de Deus, do mar.
Tenho andado nestes dias a pensar no espectáculo e na peça, na pena que tenho de não a ter traduzido, nos silêncios e no olhar do actor (João Meireles) e na dúzia de pessoas que estavam presentes no Mirita Casimiro, cinco delas da casa.
E também não sei se é isto que é importante, quando à noite olho para o lado não está lá ninguém.