sábado, 7 de maio de 2016

ROCKET MAN

– Diz o nome de um cão.
– Tem de ter um significado?
– Claro, mas uma coisa que não se perceba.
Ela pensa um bocado.
– Rocket.
O Rocket era um rafeiro. Ninguém sabia nada dele, do passado dele. Tinha sido encontrado a vaguear por uma avenida movimentada da cidade, sem coleira, sem uma placa de metal que lhe dissesse o nome ou um número de telefone para quem ligar caso o encontrassem. Estava mal nutrido e desidratado, não estava a morrer, mas em geral poder-se-ia dizer que estava em muito má condição, e apesar de não ter oferecido resistência quando o apanharam, os empregados municipais sentiram algum receio quando ele olhou para eles depois de o prenderem. O Rocket  era um cão grande. O veterinário da Câmara, um homem obeso com barba branca e uma cicatriz em forma de serpente no braço direito,  pesou-o e fez aquilo que os veterinários da Câmara fazem quando um cão é apanhado na rua, por exemplo dizer,
– oito anos,
depois de lhe examinar os dentes,
– talvez um ano,
depois de lhe perguntarem há quanto tempo ele estaria abandonado,
– ele precisa de vitaminas,
depois de descalçar as luvas de borracha.
Chamaram-lhe Rocket e levaram-no para uma espécie de jaula individual onde ele passava a maior parte do tempo na companhia de outros cães que passavam o dia a ladrar. Não era desconfortável, era apenas uma condição. O Rocket mantinha-se em silêncio, Duas vezes por dia levavam-no a passear para um jardim e atiravam uma bola para longe na esperança que o Rocket fosse buscá-la. O Rocket olhava para a bola e não se mexia, apenas continuava a andar, às vezes com os olhos baixos na relva, outras vezes com o focinho erguido, como se procurasse alguma coisa. Os jovens voluntários do canil municipal davam-lhe festas e biscoitos. O Rocket olhava para eles e afastava-se, deitava-se na relva e fechava os olhos, nenhum deles sabia no que ele estaria a pensar.
Às vezes alguns dos cães eram levados. Vinham pessoas, casais com um filho ou dois, apontavam para um cão e depois de se baixarem e de lhes darem festas, sorriam e iam-se embora com eles. O Rocket olhava para esta cena sem grande emoção, o que não causava surpresa, uma vez que nunca o tinham visto abanar a cauda.
Um dia, uma mulher apontou para ele. Ela estava sozinha. O Rocket saiu da espécie de jaula com pouco entusiasmo e olhou para ela com o mesmo olhar com que tinha encarado os funcionários municipais no dia em que foi capturado. Ela não pareceu preocupada e baixou-se para ele. O Rocket cheirou-a e aproximou-se, passou o pescoço e o dorso pelas pernas dela, ela abraçou-o. Toda a gente estava surpreendida.
Ela levou-o para casa e nas semanas a seguir o Rocket passou os dias dividido entre esperar que ela regressasse a casa e passear com ela pela cidade. Davam longos passeios, muitas vezes até um parque onde ela o soltava. O Rocket não se afastava dela, a não ser quando ela atirava qualquer coisa para longe, uma pedra, por exemplo, que ele ia buscar o mais rápido que conseguia para lhe devolver. Em casa, ela deitava-se no sofá onde muitas vezes adormecia enquanto via televisão. Ele olhava para ela sentado no tapete e às vezes ladrava para a acordar, porque sabia que ela lhe ia dar uma festa quando abrisse os olhos, era uma forma de ele saber que aquilo estava a acontecer, que não era apenas um sonho, um sonho de um cão.
O Rocket era um cão feliz. Mas um dia acordou e percebeu que alguma coisa não estava bem. Ela saiu de casa sem se despedir dele e à noite, quando regressou, foi directamente para a cama, como se ele não existisse. Os longos passeios não se voltaram a repetir e uns dias depois, sem que o Rocket percebesse o que estava a acontecer, ela meteu-o no banco de trás do carro e voltaram ao canil municipal. Ela foi-se embora enquanto punham o Rocket outra vez numa espécie de jaula, sozinho. 
O Rocket ladrou a noite toda.
Depois deixou de ladrar. No dia a seguir os voluntários do canil municipal referiram ao veterinário da Câmara que ele não estava bem. Diziam que estava pior do que antes, que parecia que lhe faltava qualquer coisa, talvez a alma,
– os cães não têm alma,
disse o veterinário, enquanto mencionou depressão e receitou vitaminas.
Rocket was a dead dog.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

MURPHY'S LAW

– Como é que te estás a sentir agora?
Eu olho para o relógio que está pendurado na parede. Faltam 25 minutos para sair daqui. Daqui a 25 minutos vou-me embora. Podia ir agora se quisesse, podia levantar-me e sair pela porta, nem sequer tinha de dizer nada, uma perna à frente da outra, apenas andar até à porta e ir-me embora. Mas não quero fazer isso. Não vou fazer isso. Vou ficar aqui sentado mais 25 minutos a fumar cigarros e a responder com monossílabos,
– sim.
– Sim? Isso é muito interessante. Queres dizer que te sentes positivo?
– Não.
Ele continua a falar. Quando sair daqui, daqui a 25 minutos, vou comprar uma garrafa de whisky e fecho-me em casa até amanhã, só tenho aulas às 11 e já não acordo no tapete há algum tempo. Nem sequer sei porque continuo a vir aqui, a olhar para o relógio e a enfiar ar nos pulmões  para depois suspirar muito alto quando ele acaba uma frase. Ele ri-se quando eu faço isso.
– Sabes quem é que me fazes lembrar?
– Não.
– O meu filho de três anos quando vai ao dentista.
– O teu filho de três anos vai ao dentista?
E ele ri-se muito alto e diz que conseguiu arrancar-me mais que uma sílaba numa frase sem sequer se esforçar muito, ele diz que eu sou muito inteligente para umas coisas mas que para outras sou a pessoas mais estúpida que ele alguma vez conheceu,
– porque às vezes és tão estúpido, Miguel, que dá vontade de te atirar com um tijolo à cabeça.
– Isso foi o que a minha actriz preferida disse,
digo eu.
– E ela tem razão?
– Não sei,
digo eu,
– espero que não,
digo eu.
Ele diz que só tenho mais 20 minutos e quer saber se eu quero falar sobre alguma coisa ou se quero apenas suspirar e responder sim ou não enquanto os 20 minutos passam. Eu olho para ele. Gosto do meu psicólogo, acho que ele se preocupa realmente comigo apesar de me cobrar 70 euros por hora. Mas é isso, se queremos que alguém se preocupe connosco se calhar o melhor é dar-lhe 70 euros a cada hora que passa, pelo menos podemos sair pela porta sem dar explicações, mas eu não quero sair pela porta sem dar explicações, eu quero continuar aqui sentado.
– Queres falar sobre o final?
Há dois meses o meu psicólogo sugeriu que eu escrevesse uma série de crónicas que se afastassem da minha vida, que ninguém pudesse ver como autobiográficas, que ninguém acreditasse nelas,
– para te dar algum sossego,
disse ele,
– para não confundires as coisas. Acho que te estás a deixar afectar por isso. Escreves que estás infeliz e as pessoas acham que estás infeliz, escreves que estás apaixonado e as pessoas acham que estás apaixonado.
Pareceu-me uma boa ideia. E o Neil não se ia importar que eu pegasse nele para escrever o Rock and Roll. Dez capítulos, dois meses, e as pessoas a dizerem-me,
– quando é que acabas com essa merda?,
 e eu,
– eu não sou uma telenovela.
Ele olha para mim.
– As pessoas não gostaram.
– Não, as pessoas não gostaram, as pessoas não gostaram nada. Não quero falar sobre isso, sobre o desenvolvimento lento das personagens, etc.. Não gostaram, pronto.
Olho para o relógio pendurado na parede. Faltam quinze minutos para me ir embora.
– No final ele ouve um despertador que é a campainha. Queres falar sobre isso?
– Não.
– Eu pensei que ele fosse ouvir uma campainha que fosse o despertador. Dava a ideia de que tudo tinha sido um sonho, de que nada tinha acontecido. Era um bom final. Mas se ele ouve a campainha... Não sei... É como se quisesses que uma personagem ganhasse vida e te fosse tocar à porta a meio da manhã.
Eu acendo um cigarro e olho para ele. Estou a sorrir e é a primeira vez que estou a sorrir.
– Talvez ela seja real,
digo eu.
– E a campainha tocou?,
pergunta o meu psicólogo. E não, não tocou, nem de manhã, nem de tarde, nem de noite.
– Talvez estejas a ver coisas,
diz ele,
– talvez precises de um psiquiatra e de antipsicópticos.
E eu olho para ele e o tempo passa. O tempo a passar e eu a olhar para ele.
– Talvez,
digo eu,
– talvez não.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

ROCK AND ROLL (10)

– What do you think happened?,
pergunta o Neil.
– Não sei, Neil, não sei mesmo,
digo eu enquanto o Neil continua a arrumar as coisas, que não são muitas. O Neil vai-se embora, vai regressar para Springfield, no Illinois, depois de ter descoberto que a,
– nunca me disseste o nome dela,
digo eu,
– you never asked,
diz o Neil, acho que há alguma tristeza na voz dele, não sei se por eu nunca ter perguntado o nome dela se por ele ter de o dizer e recordar,
– Sara, her name is Sara, kind of like the desert, right?,
ele olha para mim,
– you look surprised,
mas eu não respondo e continuo onde estava. O Neil vai-se embora, vai regressar para Springfield, no Illinois, depois de ter descoberto que a Sara tinha trocado o professor de educação física com uma deficiência na fala por um veterano de arquitectura, jogador de râguebi aos sábados, surfista aos domingos e pandeireta da tuna arquitectuna de segunda a sexta,
– that’s just too much for me,
disse o Neil,
– I can’t handle that, I just can’t handle it. I have a daughter, you know, and I left my daughter for this… for this… girl… I don’t even know what to say about her. What would you say about her? I mean, now you know her name, so you know everything about her, ‘cause I told you everything about her, what she did to me, so if I’d ask you what do you think about her, what would you say?
E eu olho para ele e digo,
– vai para casa, Neil. Não é para a tua casa em Cascais, é para a tua casa nos Estados Unidos. O que é que estás aqui a fazer?
E o Neil pega na mochila e nas duas guitarras, vai regressar com o mesmo que veio, e depois pega numa das guitarras, na guitarra preferida dele, e estende-a para mim,
– you take this, my friend,
eu olho para a guitarra que tenho nas mãos,
– you don’t have to say anything, and don’t worry, I travel light.
E acabava assim, comigo a olhar para o Neil, ele com uma guitarra e uma mochila às costas, eu com a guitarra preferida dele nas mãos. Era um final em aberto cheio de significados. Eram dez capítulos ou dez músicas sobre como começar outra vez, sobre como podemos voltar para trás ou como podemos seguir em frente, era um final em aberto em que o Neil eventualmente reencontrava a vida e eu eventualmente reencontrava o amor.
Era um final em aberto.
Mas o Neil ainda tinha de ir até ao aeroporto e eu ia levar o Neil até ao aeroporto, e a meio da A5 ele voltou a perguntar,
– what do you think happened?,
e eu voltei a dizer,
– não sei, Neil, não sei mesmo.
Ele está a falar de ti. Ele está a falar da maneira como apareces e desapareces, ele está a dizer que agora que ele se vai embora tem medo que te vás embora também, ele está preocupado comigo, ele acha que eu vou sucumbir debaixo da minha própria angústia e que não vou aguentar. Mas ele quer contrariar isso e diz,
– don’t worry about it,
e diz,
– it’ll be fine,
e,
– you know, I have a good feeling about this,
mas eu acho que ele só está a tentar animar-me.
Estamos a falar de ti,
– the woman who is a goddess,
como diz o Neil. Estamos os dois no aeroporto da Portela, eu e ele. O Neil vai para Berlim, depois para Nova Iorque, depois para Springfield, no Illinois,
– you know, I’m glad I have someone to say goodbye,
diz o Neil a rir. E dá-me um abraço. Era suposto estares aqui, era suposto teres dito qualquer coisa. Era suposto despedires-te do Neil. Mas disseste,
– quero estar sozinha,
e enquanto ele se afasta para o check-in penso naquela imagem da Pioneer 10, a vaguear pelo espaço, naquelas duas figuras, homem e mulher, o homem a dizer
– olá,
ou
– adeus,
consoante a interpretação, e penso que eles deviam estar de mão dada, e penso que deverias estar agora ao meu lado a dar-me a mão enquanto eu ergo o braço e o Neil se volta para trás e diz,
– don’t you worry, everything will be fine.
Pego no carro e volto para casa. Estou à espera de te encontrar à porta de minha casa, sentada no chão, à minha espera. Não estás sentada no chão à porta de minha casa à minha espera. Vou dormir. Sonho com o Neil a voar sobre o Atlântico. O Neil a voltar para onde nunca devia ter saído.
É amanhã. Levanto-me da cama. Vou acordar cedo, com o Sol a nascer. Vou até à varanda. Acendo um cigarro. Olho para cima, 
E depois o despertador toca, não, e depois a campainha toca. 

sábado, 23 de abril de 2016

ROCK AND ROLL (9)

Acho que tenho falado demasiado sobre o Neil e pouco sobre mim. Não é que tenha medo que as pessoas não saibam quem eu sou, mas, não sei, se calhar um dia alguém pega nestes textos e faz disto uma espécie de peça, de peça de teatro, uma espécie de concerto, uma peça-concerto, com dez músicas ou um monólogo dividido em dez partes, e depois penso nas pessoas que estão presentes a assistir, nas poucas pessoas que estão presentes a assistir e no pouco que elas sabem sobre mim, e não é que isso me preocupe, porque não me preocupa, mas acho que tenho falado demasiado sobre o Neil e pouco sobre mim.
Há dois dias era já de madrugada e tu estavas a lavar os dentes com a porta aberta. Íamos dormir umas três horas porque ficámos a conversar até muito tarde. Estamos nessa fase, em que conversamos até ser muito tarde. Eu estava a olhar para ti sentado à mesa enquanto fumava um cigarro e tu estavas de cuecas e com uma t-shirt minha. Eu estava a olhar para ti a pensar,
– como é que isto aconteceu?,
e depois saíste da casa-de-banho e sentaste-te ao meu colo e abraçaste-me, e eu a pensar,
– como é que de repente isto aconteceu?
As pessoas não nos vêem juntos, não é metafórico, é mesmo verdade, raramente saímos à rua os dois, e quando damos a mão ninguém nos está a ver. E por isso as pessoas olham para mim e dizem,
– tens a certeza que isso não é só na tua cabeça?,
ou,
–  ponho as minhas mãos no fogo em como isso não é verdade,
e dizem isso com tanta convicção
(não gosto desta palavra)
e dizem isso com tanta certeza que começo a duvidar que seja mesmo verdade que estejas agora sentada ao meu colo, de cuecas e t-shirt, a abraçar-me enquanto perguntas,
– estás a pensar em quê?
Vou fazer um silêncio.  E agora vou continuar. Vou falar sobre mim. Não tenho muitos amigos, mas sou capaz de dar por mim a abraçar uma pessoa a meio da noite enquanto ela me diz,
– senti tanto a tua falta,
e acho que isso é bom, acho que isso diz qualquer coisa sobre mim, acho que isso é importante porque se algumas pessoas sentem a minha falta isso quer dizer que eu sou importante para elas, mesmo que haja outras que mal eu me aproxime digam,
– bem, tenho de me ir embora.
O Neil nunca disse isso, e ontem, às quatro da manhã, estamos os dois abraçados no centro de Cascais,
– april is the cruelest month, breeding
grita o Neil,
– liquor out of the dead land.
O Neil está bêbado, o Neil está sempre bêbado, mas às sextas-feiras bebe demais e é capaz de se pôr a fazer variações sobre T.S. Eliot, aos berros no centro de Cascais, enquanto um polícia se aproxima e nos diz para termos calma,
– o que é que se passa aqui?, é melhor terem calma,
e eu, sem saber como, mesmo estando menos bêbado que o Neil também estou a cair, peço desculpa pelos dois e digo que o vou levar a casa, que saímos de uma despedida de solteiro e que ele é o noivo,
– mas há aqui algum problema?,
insiste o polícia,
– sim,
digo eu,
– temos um problema filosófico,
digo eu,
– quando Schopenhauer deu um cacho de uvas brancas a uma rapariga de dezassete anos num passeio de barco, e ele tinha na altura quarenta e três/
ia perguntar-lhe se  o amor não será uma simbiose de contrários, o belo com o feio, o novo com o velho, o júbilo com a melancolia,
mas ele volta-nos as costas enquanto diz,
 – cambada de bêbados,
e o Neil se encosta ao meu ombro e volta a gritar,
– maybe I should go home, I don’t want problems with the law, I just want to fuck the law,
e o polícia a olhar para trás e eu a rir-me e o Neil ainda mais alto,
– fuck the law, fuck you mister policeman,
e o polícia,
– bem, bem...
E lá vamos os dois, rua acima, eu a levar o Neil às costas enquanto penso em ti, talvez nua, talvez vestida, deitada na tua cama, longe de mim porque estou a carregar com o Neil às costas, e o Neil a recitar William Blake e eu a dizer,
– não és o Corto Maltese, pára de dizer poemas,
e depois paramos porque o Neil acha que vai vomitar e não quer vomitar para cima de mim e eu não quero que ele vomite para cima de mim.  Mas o Neil não é gajo para vomitar e depois de uns segundos a olhar para o céu, senta-se no chão encostado a uma parede. Eu sento-me ao lado dele. Estamos os dois sentados no chão encostados a uma parede.
– Estás todo fodido,
digo. Ele acena com a cabeça. Ele concorda,
– I’m all fucked up.
O Neil diz que não é justo, que ele não tem de sofrer por minha causa, que ele me ensinou os acordes, as bases, os truques,
– it’s not fair,
diz o Neil. O Neil diz que com o tempo até podemos tocar juntos à noite, ele diz que eu se calhar estou farto do teatro, que estou farto de escrever, que estou farto de whisky. O Neil diz que eu estou a mudar a minha vida mas que ele não tem de pagar por isso, que ele não quer ser infeliz por mim.
– The woman who is a goddess,
diz o Neil,  
– she changed everything,
diz o Neil.
Mas os meus amigos dizem que tenho de ter cuidado, que eu tenho de ter calma. Os meus amigos não querem que eu sofra. Os meus amigos estão preocupados, os meus amigos dizem,
– aquela miúda do Schopenhauer escreveu no diário, hoje o velho deu-me um cacho de uvas brancas e eu senti vontade de vomitar porque ele tinha tocado nelas,
– se calhar estás a imaginar coisas,
dizem os meus amigos.
– I’m a friend,
diz o Neil,
– and I never said that,
diz o Neil.

domingo, 17 de abril de 2016

ROCK AND ROLL (8)

Estamos no estúdio do Neil, eu e o Neil. Ele diz,
– we’re almost there,
 e eu olho para a guitarra e olho para os meus dedos. É estranho como às vezes as coisas acontecem sem darmos conta que elas estão a acontecer, é estranho como às vezes as coisas acontecem sem percebermos como elas estão acontecer. Ou então é estranho, apenas. Viver é estranho. Acordar todos os dias e abrir os olhos sem saber bem em que mundo se está, abrir os olhos e pensar,
– onde é que eu estou?,
para depois resolvermos um problema maior,
– quem é que eu sou?,
mesmo que não estivéssemos a sonhar que éramos outra pessoa com outra vida noutro lado noutra altura noutra pele, mesmo que sejam apenas os olhos abertos a identificar onde estamos, e sabemos onde estamos, e se sabemos onde estamos sabemos quem somos. É isso? É isso, não é?
– Get ready,
diz o Neil,
– this is it,
diz o Neil,
– you’re ready,
diz o Neil.
Estou a escrever outra vez. Estou a escrever outra vez e tu estás deitada na cama. Não te disse para ires para casa, não te disse que precisava de estar sozinho, não te disse,
– desculpa,
depois de te mandar embora porque estou a escrever outra vez. Apenas fiquei a olhar para ti enquanto te despias. Tinhas tirado as lentes e eu estava sentado à mesa , longe de ti,
– vou pôr os óculos para saber se estás a olhar para mim,
disseste.
– Não é preciso,
disse eu,
– vou estar sempre a olhar para ti.
Tu sorris para mim. Estás sentada na cama. Eu digo que vou voltar a escrever, que demoro uma hora até deitar-me ao teu lado, que talvez nem sequer consiga escrever nada, mas que demoro uma hora até me deitar ao teu lado. Tu voltas a perguntar,
– tens a certeza?, eu posso ir-me embora,
e eu digo que tenho a certeza, eu digo-te,
– tenho a certeza.
Eu sento-me e começo. O Neil diz que já não tem nada a ensinar-me, diz que a partir daqui vou ter de ser eu a continuar sozinho, ele diz que está na altura de eu começar a perceber que não há nada a ensinar, que é tudo uma questão de confiança, que eu tenho de confiar em mim e confiar nela,
– nela?,
pergunto eu,
– na guitarra,
diz o Neil. Ficamos em silêncio. O Neil faz um charro, eu faço um cigarro. O Neil olha para mim e pergunta-me se eu o vou matar,
– are you going to kill me?
O Neil, de Springfield, Illinois, pergunta-me se eu o vou matar ou se o vou deixar a viver na merda, a tocar nos bares de Cascais à espera que ela apareça enquanto ele engata uma quarentona porque ela não apareceu. O Neil diz que não quer isso, que não quer ficar a tocar nos bares de Cascais para sempre, à espera que ela entre pela porta. Ele diz que prefere voltar para casa, que prefere ir à procura da filha, que prefere isso a ficar à espera para sempre que ela entre pela porta do bar e lhe diga,
– acho que cometi o maior erro da minha vida.
Eu olho para o Neil. Ele acende o charro, eu acendo o cigarro.
– How about that girl, the one that got away, did you find her?,
e eu penso em ti deitada na cama, de olhos fechados, à espera que eu regresse, à espera que eu te abrace enquanto eu voltei a escrever.
– You know, the woman who was a goddess, what happened to her?,
pergunta o Neil, enquanto eu me levanto para ir ter contigo e digo,
– estás fodido, Neil, não vais voltar para casa.

domingo, 10 de abril de 2016

ROCK AND ROLL (7)

Alguns de vocês já viram o Neil a tocar ao vivo. Alguns de vocês já o viram no final de um concerto a rodopiar a guitarra sobre a cabeça, o resto da banda a tocar e o Neil no palco com o cabelo de um lado para o outro, como se fosse um super-herói a voar pelo céu. O Neil com vontade de espatifar a guitarra contra o chão, mas o Neil a saber que se espatifar a guitarra contra o chão vai ter de comprar uma nova, e o Neil não tem dinheiro para comprar uma guitarra nova, e por isso apenas a rodopia no ar, como se fosse uma ventoinha.
– I don’t give a fuck,
diz o Neil quando o dono do bar lhe diz que as quarentonas gostam de músicas animadas, que elas querem ouvir músicas dos anos 80, coisas mexidas que as fazem recordar que quando eram novas iam ser felizes. O dono do bar diz que elas bebem mais quando se lembram do passado,
– elas bebem mais quando se lembram do passado.
O Neil olha para ele e diz,
– I don’t give a fuck,
e é capaz de começar com Bob Dylan e acabar com o Papa Loves Mambo, só porque lhe apetece. São as quintas-feiras do Neil. E às quintas-feiras o Neil faz o que lhe apetece, às quintas-feiras quem manda é o Neil, e as quarentonas pedem sempre mais uma pint, mesmo que não tenham sede, e às vezes até puxam o top para cima e mostram as mamas ao Neil, mesmo quando não beberam nada.
Eu estou ao balcão. Estou sempre ao balcão, parece que a minha vida é passada ao balcão de um bar. Parece que a minha vida é um bocado de madeira debaixo dos meus cotovelos e eu a dizer,
– outro,
enquanto me vão servindo whisky e me vão servindo whisky e me vão servindo whisky.
– Estou farto de mim,
digo ao Neil quando ele se senta ao meu lado num intervalo,
– we’re gonna take a small break, don’t go away, the booze’s on the counter and I’ll be there too, ladies.
(toda a gente se ri e bate palmas)
 – thank you, thank you, it’s good to be here. It’s good to be here again.
E depois sai do palco que não é um palco. E caminha com as botas de cowboy até ao balcão. E pede whisky.
– How’re you doing, Mike?
Eu olho para ele e abano a cabeça. As coisas estão a mudar. As coisas estão a mudar para melhor. As coisas só são más quando acreditamos que elas são más. As coisas só são más quando deixamos que elas tomem conta de nós, como tu tomaste conta de mim,
– what?,
diz o Neil,
– nada,
digo eu.
– Where is she?,
diz o Neil,
– where is that woman that is a goddess?
As garrafas balançam à minha frente e eu balanço com elas, dançamos todos, eu e as garrafas, mesmo sem o Neil a cantar, mesmo comigo sentado ao balcão e as garrafas quietas atrás da miúda que me vai servindo whisky quando digo,
– outro.
Ela foi-se embora, Neil, ela tinha de se ir embora,
– why?
pergunta o Neil, acho que está preocupado.
Está muito barulho. Há uma miúda com uns vinte anos sentada ao meu lado, quer pedir uma cerveja mas não consegue que a ouçam. Do outro lado do balcão uma quarentona não larga os olhos do Neil enquanto ele fala comigo,
– what happened?,
eu estou a pensar em ti enquanto me lembro de ti,
– estava a pensar numa ideia para uma história,
digo eu ao Neil,
– um escritor que conhece uma mulher, e ela é perfeita, é perfeita em tudo, e o escritor é um merdas, é um merdas em tudo. Mas mesmo assim ela quer estar com ele, ela quer mesmo estar com ele. Às vezes isso acontece, às vezes isso acontece mesmo. E depois, quando ele está sozinho, em casa, ele pergunta porquê e ele percebe que ela não é uma mulher, que ela é uma deusa, como na antiguidade, e ele escreve num caderno,
– a mulher que é uma deusa,
ele escreve isso num caderno. E depois ele escreve uma história sobre isso. Ele disfarça a realidade com a ficção. Ele finge que isto não está a acontecer. Ele pede outro whisky.
O tempo passa. O Neil está outra vez no palco. Eu estou ao balcão. E tu, estás onde?

domingo, 3 de abril de 2016

ROCK AND ROLL (6)

O Neil está deprimido. O Neil diz que o mundo anda ao contrário, que ele não compreende como podem as pessoas acordar de manhã e abrirem os olhos para o dia e pensarem,
– vou levantar-me.
O Neil toma dois anti-depressivos ao pequeno-almoço, bebe uma caneca de chá preto, come uma torrada e volta a enfiar-se na cama. Enterra a cabeça na almofada e diz,
– fuck the world,
enquanto volta a adormecer sem pensar noutra coisa que não seja dormir.
Combinámos almoçar num sushi às duas da tarde, um daqueles em que se pode comer até cair. O Neil disse que lhe apetecia saqué, mas que não tinha fome, eram sete da manhã e eu tinha vindo de Lisboa e tinha ido ter com ele a um bar em Cascais que ainda estava aberto. O Neil estava perdido de bêbado, eu estava só perdido. Também não tinha fome, não me apetecia saqué, mas pensei que talvez às duas da tarde tivéssemos fome e que eu podia beber outra coisa qualquer. Pedi um whisky. Pedir um whisky às sete da manhã é sinal de que ainda não se viveu nada ou de que já se viveu tudo, inclino-me para a segunda hipótese. Fomo-nos embora passados 10 minutos, o Neil disse que conhecia um café que já estava aberto, eu perguntei-lhe se se ele queria que eu o levasse a casa,
– no, man, I’m gonna walk, it won’t hurt me and maybe it’ll make me some good. How about you, how was your night?,
eu digo,
– até amanhã, Neil, já é tarde,
enquanto caminho na direcção contrária e o ouço ao longe a dizer,
– if you don’t like the subject, just change the conversation, right?, I know that one,
e ri-se,
– don’t you mind those fucking bitches, Mike, not only they’re bitches but they’re also dykes.
Pensei chegar a casa e dormir, enfiar-me nos lençóis e fechar os olhos. Às vezes as coisas mais simples são as mais difíceis. Sentei-me no sofá, fumei quatro cigarros seguidos, levantei a cabeça e apaguei o cigarro. Depois fui até à varanda. O Sol batia-me na cara. Olhei para baixo e pensei que estou só a oito andares do chão, a quatro ou cinco segundos do chão, pensei. Depois voltei para dentro de casa, parei um momento, e fechei a cortina.
O Neil chegou eram três da tarde, eu já tinha almoçado. Ele pede desculpa,
– São três da tarde, Neil,
e ele pede desculpa outra vez, ele diz que adormeceu, ele diz que está nervoso por causa do concerto de hoje à noite, ele diz que acha que ela talvez apareça, que talvez ela apareça para o ver, que talvez ela faça isso, que talvez ela tenha deixado o professor de educação física com uma deficiência na fala e sinta a falta dele, que talvez ela sinta falta de estar com ele, de o abraçar,
– what do you think?,
diz o Neil,
e eu digo-lhe que acho melhor ele habituar-se à ideia de que ela nunca vai voltar. Eu digo-lhe que talvez seja melhor ele começar a pensar em voltar para os Estados Unidos, que de certeza que há coisas em casa que são importantes e que a única coisa que ele está aqui a fazer é perder tempo, é a perder a vida por causa de uma gaja que não vale nada, que o trocou por um professor de educação física com uma deficiência na fala,
– uma gaja que provavelmente nem se está a rir de ti neste momento porque ela nem sequer está a pensar em ti,
eu digo-lhe que de certeza que ele tem coisas importantes em casa, que não são os concertos em Cascais ou as aulas de guitarra que interessam, eu digo-lhe que ele tem de pensar nas coisas, que não pode continuar a/  
– well, I do have my daughter,
diz o Neil,
– she’s five, it’s been five years since I last saw her.
E depois ficamos a olhar um para o outro durante pouco tempo, é mesmo pouco tempo, não é literário, não é, muito tempo, é pouco tempo porque eu olho para a mesa e ele olha para a janela. Ficamos em silêncio muito tempo. A senhora vem com o saqué. Eu afinal também quero. Eu digo,
– obrigado,
enquanto ele bebe o primeiro copo de uma vez.
– Tu tens uma filha? Estás aqui perdido neste país de merda, nesta cidade de merda, nesta aldeia de merda e tens uma filha?,
– she tells me I’m insane, do you think I’m insane?,
pergunta o Neil.