domingo, 10 de abril de 2016

ROCK AND ROLL (7)

Alguns de vocês já viram o Neil a tocar ao vivo. Alguns de vocês já o viram no final de um concerto a rodopiar a guitarra sobre a cabeça, o resto da banda a tocar e o Neil no palco com o cabelo de um lado para o outro, como se fosse um super-herói a voar pelo céu. O Neil com vontade de espatifar a guitarra contra o chão, mas o Neil a saber que se espatifar a guitarra contra o chão vai ter de comprar uma nova, e o Neil não tem dinheiro para comprar uma guitarra nova, e por isso apenas a rodopia no ar, como se fosse uma ventoinha.
– I don’t give a fuck,
diz o Neil quando o dono do bar lhe diz que as quarentonas gostam de músicas animadas, que elas querem ouvir músicas dos anos 80, coisas mexidas que as fazem recordar que quando eram novas iam ser felizes. O dono do bar diz que elas bebem mais quando se lembram do passado,
– elas bebem mais quando se lembram do passado.
O Neil olha para ele e diz,
– I don’t give a fuck,
e é capaz de começar com Bob Dylan e acabar com o Papa Loves Mambo, só porque lhe apetece. São as quintas-feiras do Neil. E às quintas-feiras o Neil faz o que lhe apetece, às quintas-feiras quem manda é o Neil, e as quarentonas pedem sempre mais uma pint, mesmo que não tenham sede, e às vezes até puxam o top para cima e mostram as mamas ao Neil, mesmo quando não beberam nada.
Eu estou ao balcão. Estou sempre ao balcão, parece que a minha vida é passada ao balcão de um bar. Parece que a minha vida é um bocado de madeira debaixo dos meus cotovelos e eu a dizer,
– outro,
enquanto me vão servindo whisky e me vão servindo whisky e me vão servindo whisky.
– Estou farto de mim,
digo ao Neil quando ele se senta ao meu lado num intervalo,
– we’re gonna take a small break, don’t go away, the booze’s on the counter and I’ll be there too, ladies.
(toda a gente se ri e bate palmas)
 – thank you, thank you, it’s good to be here. It’s good to be here again.
E depois sai do palco que não é um palco. E caminha com as botas de cowboy até ao balcão. E pede whisky.
– How’re you doing, Mike?
Eu olho para ele e abano a cabeça. As coisas estão a mudar. As coisas estão a mudar para melhor. As coisas só são más quando acreditamos que elas são más. As coisas só são más quando deixamos que elas tomem conta de nós, como tu tomaste conta de mim,
– what?,
diz o Neil,
– nada,
digo eu.
– Where is she?,
diz o Neil,
– where is that woman that is a goddess?
As garrafas balançam à minha frente e eu balanço com elas, dançamos todos, eu e as garrafas, mesmo sem o Neil a cantar, mesmo comigo sentado ao balcão e as garrafas quietas atrás da miúda que me vai servindo whisky quando digo,
– outro.
Ela foi-se embora, Neil, ela tinha de se ir embora,
– why?
pergunta o Neil, acho que está preocupado.
Está muito barulho. Há uma miúda com uns vinte anos sentada ao meu lado, quer pedir uma cerveja mas não consegue que a ouçam. Do outro lado do balcão uma quarentona não larga os olhos do Neil enquanto ele fala comigo,
– what happened?,
eu estou a pensar em ti enquanto me lembro de ti,
– estava a pensar numa ideia para uma história,
digo eu ao Neil,
– um escritor que conhece uma mulher, e ela é perfeita, é perfeita em tudo, e o escritor é um merdas, é um merdas em tudo. Mas mesmo assim ela quer estar com ele, ela quer mesmo estar com ele. Às vezes isso acontece, às vezes isso acontece mesmo. E depois, quando ele está sozinho, em casa, ele pergunta porquê e ele percebe que ela não é uma mulher, que ela é uma deusa, como na antiguidade, e ele escreve num caderno,
– a mulher que é uma deusa,
ele escreve isso num caderno. E depois ele escreve uma história sobre isso. Ele disfarça a realidade com a ficção. Ele finge que isto não está a acontecer. Ele pede outro whisky.
O tempo passa. O Neil está outra vez no palco. Eu estou ao balcão. E tu, estás onde?

domingo, 3 de abril de 2016

ROCK AND ROLL (6)

O Neil está deprimido. O Neil diz que o mundo anda ao contrário, que ele não compreende como podem as pessoas acordar de manhã e abrirem os olhos para o dia e pensarem,
– vou levantar-me.
O Neil toma dois anti-depressivos ao pequeno-almoço, bebe uma caneca de chá preto, come uma torrada e volta a enfiar-se na cama. Enterra a cabeça na almofada e diz,
– fuck the world,
enquanto volta a adormecer sem pensar noutra coisa que não seja dormir.
Combinámos almoçar num sushi às duas da tarde, um daqueles em que se pode comer até cair. O Neil disse que lhe apetecia saqué, mas que não tinha fome, eram sete da manhã e eu tinha vindo de Lisboa e tinha ido ter com ele a um bar em Cascais que ainda estava aberto. O Neil estava perdido de bêbado, eu estava só perdido. Também não tinha fome, não me apetecia saqué, mas pensei que talvez às duas da tarde tivéssemos fome e que eu podia beber outra coisa qualquer. Pedi um whisky. Pedir um whisky às sete da manhã é sinal de que ainda não se viveu nada ou de que já se viveu tudo, inclino-me para a segunda hipótese. Fomo-nos embora passados 10 minutos, o Neil disse que conhecia um café que já estava aberto, eu perguntei-lhe se se ele queria que eu o levasse a casa,
– no, man, I’m gonna walk, it won’t hurt me and maybe it’ll make me some good. How about you, how was your night?,
eu digo,
– até amanhã, Neil, já é tarde,
enquanto caminho na direcção contrária e o ouço ao longe a dizer,
– if you don’t like the subject, just change the conversation, right?, I know that one,
e ri-se,
– don’t you mind those fucking bitches, Mike, not only they’re bitches but they’re also dykes.
Pensei chegar a casa e dormir, enfiar-me nos lençóis e fechar os olhos. Às vezes as coisas mais simples são as mais difíceis. Sentei-me no sofá, fumei quatro cigarros seguidos, levantei a cabeça e apaguei o cigarro. Depois fui até à varanda. O Sol batia-me na cara. Olhei para baixo e pensei que estou só a oito andares do chão, a quatro ou cinco segundos do chão, pensei. Depois voltei para dentro de casa, parei um momento, e fechei a cortina.
O Neil chegou eram três da tarde, eu já tinha almoçado. Ele pede desculpa,
– São três da tarde, Neil,
e ele pede desculpa outra vez, ele diz que adormeceu, ele diz que está nervoso por causa do concerto de hoje à noite, ele diz que acha que ela talvez apareça, que talvez ela apareça para o ver, que talvez ela faça isso, que talvez ela tenha deixado o professor de educação física com uma deficiência na fala e sinta a falta dele, que talvez ela sinta falta de estar com ele, de o abraçar,
– what do you think?,
diz o Neil,
e eu digo-lhe que acho melhor ele habituar-se à ideia de que ela nunca vai voltar. Eu digo-lhe que talvez seja melhor ele começar a pensar em voltar para os Estados Unidos, que de certeza que há coisas em casa que são importantes e que a única coisa que ele está aqui a fazer é perder tempo, é a perder a vida por causa de uma gaja que não vale nada, que o trocou por um professor de educação física com uma deficiência na fala,
– uma gaja que provavelmente nem se está a rir de ti neste momento porque ela nem sequer está a pensar em ti,
eu digo-lhe que de certeza que ele tem coisas importantes em casa, que não são os concertos em Cascais ou as aulas de guitarra que interessam, eu digo-lhe que ele tem de pensar nas coisas, que não pode continuar a/  
– well, I do have my daughter,
diz o Neil,
– she’s five, it’s been five years since I last saw her.
E depois ficamos a olhar um para o outro durante pouco tempo, é mesmo pouco tempo, não é literário, não é, muito tempo, é pouco tempo porque eu olho para a mesa e ele olha para a janela. Ficamos em silêncio muito tempo. A senhora vem com o saqué. Eu afinal também quero. Eu digo,
– obrigado,
enquanto ele bebe o primeiro copo de uma vez.
– Tu tens uma filha? Estás aqui perdido neste país de merda, nesta cidade de merda, nesta aldeia de merda e tens uma filha?,
– she tells me I’m insane, do you think I’m insane?,
pergunta o Neil.

quarta-feira, 30 de março de 2016

ROCK AND ROLL (5)

Ela diz que não quer ter nada comigo. Ela diz,
– eu não quero ter nada contigo,
diz isto assim, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Nem sequer me prepara, apenas me diz,
– eu não quero ter nada contigo,
e eu nem sequer disse nada, apenas falei com ela, apenas lhe disse,
– olá,
e ela logo a seguir,
– eu não quero ter nada contigo,
e eu, assim, de repente, ao olhar para isto, para esta frase que me aconteceu, a achar que deve haver qualquer coisa de errado comigo, qualquer coisa que não se diz porque não há nada para dizer, a pensar em mim como uma coisa que não funciona, um frigorífico estragado, um canivete que não corta, e ela a dizer,
– eu não quero ter nada contigo,
como se eu tivesse lepra, como se eu fosse um leproso com um sino pendurado à volta do pescoço,
– tu escreves bem,
diz a amiga do Neil enquanto olha para o telemóvel,
– é uma aliteração,
digo eu, são seis da manhã. O quê? Talvez seja o meu passado, talvez seja o meu passado ou o que eu fui, aquilo que eu fui, nós não somos apenas onde estamos, somos onde estivemos, o que fomos, e talvez aquilo que eu fui tenha sido o suficiente para agora olharem para mim e dizerem,
– eu não quero ter nada contigo,
que é o que ela diz quando eu falo com ela,
e por isso ela vai-se embora. Ela sai pela porta e eu olho para a porta e depois ouço o Neil a dizer,
– a dyke, man. Can you fucking believe it? I slept with a fucking dyke,
diz o Neil enquanto enrola um charro. Dói-me a cabeça. Dói-me a alma. Dói-me a vida.
– What happened to your girl?, she left?,
pergunta o Neil enquanto eu olho em volta,
– não sei, não me lembro,
deitado no chão,
– and why are you on the floor? You could’ve slept on the bed,
diz o Neil sentado na cama onde eu devia ter dormido.  
– Não me lembro, Neil. Não me lembro sequer de ter chegado a tua casa, nem me lembro quem é que me trouxe para tua casa, o que é que aconteceu?, nunca mais saio contigo, sabes que idade é que tenho?, estas coisas dão cabo de mim, já não tenho idade para estas coisas.
Levanto-me. Ponho as mãos na cabeça.
– I made you some coffee,
diz o Neil enquanto me estende uma chávena de água suja. Eu sento-me ao lado dele, na cama onde devia ter dormido. Eu acendo um cigarro, o Neil acende o charro.
– What a fucking night,
diz ele,
– my fingers are all dry,
e ri-se,
– that dyke just couldn’t make it, and I guess it’s ok, ‘cause she’s a dyke, I mean, she told me, sorry, I like pussy, I don’t like dick, and it just won’t work. Maybe you can hold me. Just hold me. And you know what? I put my arms around her, and we just slept through the morning, like if we’re friends. I hold her all night. Just like that, my arms around her. And that was fine.
O Neil continua a falar. Eu não o estou a ouvir. Eu estou a pensar em ti. Estou a fumar o cigarro e a pensar em ti. Não penses que estou a pensar em ti, não estou a pensar em ti, estou a pensar em ti, mas não é em ti, é noutra pessoa, porque eu não quero pensar em ti, eu quero que tu te fodas. Estás a ouvir? Não quero pensar na miúda que se foi embora a meio da noite, nem em mim a dormir no chão em vez de dormir numa cama. Não quero pensar em ti. Estou a pensar em ti enquanto o Neil se levanta e põe a tocar o último álbum dos The War on Drugs. Estou a pensar em ti. Estou a pensar no que aconteceu para eu estar aqui, em casa do Neil, a acordar no chão sem ninguém ao meu lado quando o Neil me garante que éramos quatro quando chegámos,
– I got the dyke, you got the grenade, Mike. This is war and you jumped to the grenade. I’ de thank you but we both got fucked, ‘cause mine was a dyke and yours was a grenade.
E o Neil ri-se outra vez, o Neil ri-se e eu deixo de o ouvir enquanto penso em ti. Ultimamente tenho pensado em ti, na vida que levo por não te ter, no que tenho feito por não existires, porque tu não existes, és apenas alguém com quem falo de vez em quando, que vejo de vez em quando, que olho, porque eu olho mesmo para ti quando estou a olhar para ti, de vez em quando.
São quatro da tarde. Tento lembrar-me da noite de ontem. Tento lembrar-me de ti porque te confundo com outras. Se calhar não te amo. Se calhar nem sequer gosto de ti. E depois o Neil cala-se e eu continuo calado. Estamos os dois calados, sentados na cama. E depois eu penso em ti outra vez.


quarta-feira, 23 de março de 2016

ROCK AND ROLL (4)

– you know how sad I am?,
perguntou o Neil ao telefone,
– I’m as sad as one can be.
E por isso peguei no carro e fui até Cascais, perguntar ao Neil o que se tinha passado sem lhe fazer qualquer pergunta, porque não somos homens de fazer perguntas, somos homens de ficar sentados a olhar em frente com os cotovelos apoiados no balcão e o olhar intermitente entre a rapariga que nos serve whisky e o whisky.
É terça-feira. O Neil tem ali um concerto dois dias depois, há não sei quantos anos que o Neil tem ali um concerto às quintas-feiras, há quatro anos que o Neil tem ali um concerto à quinta-feira, chamam-lhe a quinta-feira do Neil, pagam-lhe cem euros mais tudo o que ele conseguir beber. O Neil diz que é um bom negócio,
– it’s a good deal, I get to drink a lot.
O Neil diz que foi aqui que tudo começou, exactamente onde estamos sentados, ele a cantar no palco que vai ser sempre um palco improvisado e ela a falar sentada ao balcão com o professor de educação física com uma deficiência na fala.
– Later she told me that she first kissed him right here where we are, while I was singing Nirvana’s About a Girl over there. Yeah. I didn’t noticed it. I was over there, singing. And I didnt’t see a thing. And then I went to her, I was taking a break, and I shook his hand. I shook his fucking hand.
O Neil diz que ela mudou, que houve um dia, ainda em Nova Iorque, em que ela mudou. Estavam os dois sentados no chão e quando ele olhou para ela, percebeu que ela tinha mudado, não percebeu porquê, nem o que aconteceu, mas naquele momento soube que não havia nada a fazer, que era uma questão de tempo até ela dizer,
– tu és ridículo,
como ela lhe disse uns meses depois, já em Cascais, quando ele se ajoelhou aos pés dela e lhe disse,
– don’t leave me,
depois de ela lhe contar como tinha beijado o professor de educação física com uma deficiência na fala na última quinta-feira.
O Neil está bêbado, o Neil está a começar a ficar muito bêbado e a dizer as coisas que os bêbados dizem,
– she’s one in a million, man, you don’t understand,
e não percebo mesmo porque de tudo o que ele me conta esta gaja só me parece uma vaca ordinária que merece um par de bofetadas logo pela manhã pela merda que há-de fazer de tarde e um chuto no cu ao final da noite. E o Neil atravessou meio mundo por ela. E o Neil está com a cabeça enterrada num balcão por causa dela. E o Neil continua a cantar todas as quintas-feiras,
– I need an easy friend
na esperança que ela entre pela porta do bar e se atire para os braços dele e lhe diga,
– desculpa, enganei-me.
Olho para ele. Olho para a rapariga do bar e peço mais dois. Ele insiste em pagar. Eu tenho pena dele e não quero ter pena dele. Vou dizer qualquer coisa mas ele adianta-se,
– I know what you’re going to say, my friend, you’re going to say, you’ve made your bed, now lie in it. Yeah. I’ve heard that one before. Well, you know something? I sleep on the floor. That’s right, I sleep on the floor. How about that? Now you go home and write on your fucking computer that I sleep on the floor. You do that, my friend. I’m going to fuck that girl over there, and you’re going to go home and write about me. That’s what you do, right? I’ll see you tomorrow. I’m drunk and I know that I’m drunk, but it’s ok, it's ok 'cause it’s always about a girl, Mike, it’s always about a girl.
O Neil quase cai quando se levanta do balcão. Vai ter com uma irlandesa roliça que dança sozinha e que o beija passados trinta segundos. É tarde. Cá fora, enquanto fumo um cigarro e pondero a hipótese de ir até ao carro debaixo de chuva, uma francesa pergunta-me as horas.

segunda-feira, 21 de março de 2016

ROCK AND ROLL (3)

Aos Domingos lembro-me de ex-namoradas porque como não consigo encontrar uma única coisa para fazer, tento recordar o que fazia quando tinha alguém ao meu lado, mas só me consigo lembrar de almoços de família, supermercados e sestas no sofá. Talvez afinal esteja melhor sozinho porque como não tenho quem me diga,
– vai almoçar com a tua mãe,
ou,
– já não vês o teu pai há quinze dias,
acabo por lhes dizer que tenho ensaio e muitas coisas para fazer e aproveito para dormir até ser quase de noite, e como já nem sequer faço o almoço e à noite encomendo uma pizza por telefone também não vou ao supermercado, e como durmo até não poder mais não faço sestas no sofá, apenas vagueio pela casa a pensar em coisas que me vão surgindo na cabeça, como ex-namoradas ou Domingos em que havia qualquer coisa para fazer.
Ao final da tarde lembrei-me da guitarra. Passei a semana sem tocar, deitado na cama, inchado de tosse febre espirros arrepios comichões, com um lenço na mão e um pacote de lenços na outra, a tirar um lenço e a deitá-lo fora, e depois outra vez. Eu a assoar-me e a espirrar e deitar o lenço fora e a tirar outro e a dizer aos alunos,
– se eu desmaiar não se admirem.
Os alunos riem-se e eu continuo a dar a aula, a interromper-me com ataques de tosse e murros na parede.
– Alergias,
disse a minha médica,
– a quê?,
perguntei.
E ela calada a olhar para mim.
– Vou receitar-te um anti-histamínico, um anti-depressivo e um calmante, e não te preocupes, podes beber whisky à vontade.
– A sério?
– Sim,
disse ela.
– Miguel,
disse ela quando me levantei,
– lembras-te do que aconteceu da última vez?
E eu lembro-me do que aconteceu da última vez, lembro-me porque não é fácil esquecer-me, não é fácil fazer de conta que não aconteceu, nem é fácil imaginar-me outra vez assim, doente sem diagnóstico, com a minha médica a perguntar,
– o escritor és tu, qual é a palavra para a ausência de sentimentos?,
e eu automático,
– indiferença.
– Não tenho medicamentos que curem isso,
dizia ela, e agora diz,
– queres voltar ao que aconteceu da última vez?
Eu olho para ela e digo que não. Digo que não e que vou tomar os comprimidos, que vou parar, que eu sei que ela tem razão, que ela não tem de se preocupar, que eu vou ficar bem, que é só tomar os comprimidos à noite antes de ir dormir e não beber muito whisky.
Isto foi na sexta-feira. Acordei hoje e só percebi que era Domingo porque tinha trinta e oito chamadas não atendidas e achei que era demais. Achei que ninguém tem trinta e oito chamadas não atendidas numa só noite. E depois percebi que já era Domingo. E depois pus-me a pensar no que havia de fazer porque não tinha nada para fazer. Olhei para a guitarra. E já não sei se pensei em ex-namoradas ou em futuras namoradas, se pensei no que fazíamos ou no que vamos fazer, porque uma e outra coisa me parecem tão distantes quanto um Si Bemol de um Ré.
– You just have to practice,
diz o Neil.
– You just have to understand the position of the fingers, the different position of the fingers. And then you repeat, one, two, three, four, and then you loop that,
diz o Neil,
– you just loop that until you get it,
diz o Neil,
– and then it becomes you, and as it becomes you, you start to feel it. You really feel it.

sábado, 12 de março de 2016

ROCK AND ROLL (2)

Há dias que correm mal, e depois há vidas que correm mal. Lembro-me da minha prima Francisca que não via há muitos anos (e que nem sequer é minha prima) estar um dia sentada no sofá, toda ela curvada, quase com a cabeça no tapete,  e eu,
– o que é que tens, estás a vomitar?
A Francisca devia ter uns 16 anos, eu era miúdo, não sei, talvez 10 ou 12 anos, mas lembro-me que gostava de olhar para a prima Francisca (que nem sequer era minha prima) quando ela saía da piscina a ajeitar o biquíni que parecia estar sempre a querer sair do sítio, que parecia sempre demasiado pequeno para o volume da Francisca.
– Esta rapariga é muito peitriota,
dizia um tio meu enquanto se ria para mim, eu não percebia, e depois ele dizia,
– Mike, isto é que é uma miúda para ti, vai ter com ela e espeta-lhe um beijo na boca ou um apalpão no cu. Elas adoram essas coisas. Ficam malucas.
E eu todo contente fui ter com a Francisca que devia ter mais meio metro que eu, a achar que não lhe conseguia dar um beijo se ela não se baixasse. Ela enrolada na toalha a olhar para mim,
– queres alguma coisa?,
ela a virar-se de costas e a dizer para a deixar em paz. Eu a olhar para a Francisca de costas para mim e a ver o meu tio a fazer sinais, a dizer-me por sinais que era agora. Eu a olhar para o rabo da Francisca. Eu a levar um estalo da Francisca,
– estás parvo?
enquanto o meu tio se ria muito alto e entornava o whisky para o chão porque todo o corpo se ria também,
– é isso, miúdo, é isso,
e eu a fugir da Francisca que balançava pela relva atrás de mim, com o biquíni aos saltos a dizer que me ia matar.
– I’m lost,
disse o Neil,
– where are you going with that?
Agora passo muito tempo com o Neil. Às vezes vou a um concerto dele em Cascais, outras vezes vamos jantar. O Neil está tão tão triste que ao lado dele pareço uma gargalhada. À tarde mostrou-me uma música nova em que está a trabalhar,
– it’s just the beggining.
O ritmo é lento e ele parece que vai desfazer-se em água. Não. Ele parece que vai desfazer-se em merda.
                You destroyed my life, life
                You destroyed my life, life
                You destroyed my life, life
                You destroyed my life, life
                I’m gonna kill myself
                today today today
    I’m gonna kill myself
    today
– what do you think?
Eu abano a cabeça e digo que talvez seja um bom princípio enquanto me lembro da minha prima Francisca (que nem sequer é minha prima), sentada no sofá, com a cabeça quase no tapete, a gemer, com as mãos enfiadas na cabeça,
– o que é que tens, estás a vomitar?,
e ela a gritar, ela a gritar e a levantar-se e a dizer,
– sai daqui deixa-me em paz deixa-me em paz por favor sai daqui deixa-me em paz não quero ver ninguém não quero ver ninguém SAI DAQUI
E eu saí. Eu corri cá para fora e só muitos anos depois descobri que a prima Francisca (que nem sequer é minha prima), naquele início de Verão, tinha descoberto no mesmo dia que estava grávida, que tinha chumbado no nono ano pela terceira vez e que o namorado quando ouviu falar da gravidez lhe disse que estava a pensar em alistar-se no exército e que a andava a trair com a melhor amiga e com outra amiga que não sendo tão amiga quanto a outra também era muito amiga. A Francisca não aguentou e foi contar tudo aos pais cheia de lágrimas. Agarrou-se à mãe a soluçar. Ainda nem tínhamos almoçado. O pai deu-lhe duas bofetadas e passou a tarde a gritar,
– puta puta puta tenho uma filha que é uma puta,
enquanto se virava para a mulher e dizia,
– vê-se logo a quem ela sai.
O meu tio ria-se enquanto entornava mais whisky e dizia,
– a peitriota vai ficar uma vaca leiteira.
E neste dia tudo correu mal para a Francisca, tudo correu mal. Foi um dia em que tudo correu mal. Mas a Francisca teve a criança, os pais ajudaram-na, o namorado que passou a ex-namorado morreu de overdose dois anos depois e nem sequer conheceu o filho, e ela casou mais tarde com um urologista que lhe comprou um Jaguar e uma vivenda em Cascais, mesmo ao lado da casa da portuguesa por quem o Neil se apaixonou. Isso descobri agora quando vejo a Francisca a sair de um Jaguar para abrir o portão da vivenda. Está gorda. Está mesmo gorda.
Estamos os dois no meu carro, o Neil quis saber se ela ainda tinha a luz acesa, se estaria em casa. Está tão destruído que vive destas pequenas coisas. Eu faço-lhe a vontade. Ainda não me disse como ela se chama e eu ainda não perguntei. Estamos os dois muito bêbados. O Neil acende mais um charro e eu acendo mais um cigarro. É nessa altura que aparece a Francisca.
– It’s a small world,
digo eu.
– It’s a shit world,
diz o Neil enquanto olha para o charro,
– it’s a shit shit world, man. All I see is shit all around. Shit and shit and more shit. But it’s the shit we live in, it’s all there is, just shit and shit and more shit. 

quinta-feira, 10 de março de 2016

ROCK AND ROLL (1)

As pessoas dizem,
– é engraçado como as coisas acontecem,
mas não tem piada. Não tem piada nenhuma. Não me estou a rir. As pessoas olham para trás e depois olham em volta e dizem,
– é engraçado como as coisas acontecem,
e encolhem os ombros e riem-se e encolhem os ombros outra vez e olham em volta e depois esquecem-se, esquecem-se de tudo e vão dormir. A cabeça na almofada. Os olhos fechados. As pessoas a tentarem adormecer com a cabeça na almofada e os olhos fechados. As pessoas a tentarem lembrar-se da última vez que rezaram. As pessoas a pensarem no escuro à volta delas e que não querem sonhar, que não querem sonhar, que não têm vontade de sonhar para não dizerem a meio do sonho,
– é engraçado como as coisas acontecem.
Eu com medo dos sonhos enquanto me viro para o outro lado e me tento lembrar da última vez que rezei.
Doem-me os dedos. Os dedos da mão esquerda. O meu professor diz,
– your left hand is the text, your right hand are the actors, your heart’s the director, your head is the building and the guitar is all the rest. You just have to focus. It’s just like a play. Don’t forget you’re an artist.
– Não me chames isso, já te disse para não me chamares isso,
digo eu em português. Ele percebe o que eu digo. Ele pede desculpa,
– sorry, man, I keep forgetting. I’ll never understand why the fuck you hate that word so much.
Ele chama-se Neil, nasceu em Springfield, no Illinois, é mais novo do que eu. Apaixonou-se há uns anos por uma portuguesa que conheceu em Nova Iorque. Ela estava lá a estudar, ele estava lá porque sim, porque achou que ia ser um músico de blues em Nova Iorque. De certa forma somos todos iguais. Viveram juntos um ano e meio numa casa tão pequena que não cabiam lá os dois. Isso é que o Neil diz. E ri-se. E depois diz que foram felizes, que foram mesmo felizes,
– we were really happy, man. And that’s a fact. That’s a solid fact.
Depois ela achou que aquilo não era para ela, que o apartamento era demasiado pequeno e que a cidade era demasiado grande, que tinha saudades dos pais, que queria voltar para casa, que isto e aquilo e outra coisa. Conversa de merda, penso eu, mas ele achou que era verdade. Ela regressou para  casa, para Cascais e ele veio atrás dela. O Neil é porreiro. De dia dá aulas de guitarra e à noite toca em bares. Quando acabamos a aula ele fuma um charro e eu fumo um cigarro. Sentamo-nos no chão do estúdio com as costas encostadas a um sofá. Ele fuma um charro e eu fumo um cigarro. Ele diz,
– you know, I have some bourbon if you want.
– No, Neil. I’m done with that.
– Good for you, my friend, good for you,
diz ele. E depois olha em frente, para a janela à nossa frente. E eu também olho em frente, para a janela à nossa frente, de onde não se vê o mar.
Ela deixou-o há seis anos, quatro meses depois de terem aterrado em Lisboa, ela com duas malas e quinze caixotes, o Neil com duas guitarras e uma mochila. Trocou-o por um professor de educação física com uma deficiência na fala. Conhece-o num bar, enquanto o Neil cantava. O Neil diz que há uma certa ironia nisso e ri-se. Ele diz que eles só estão juntos por causa dele, porque ele deu aquele concerto naquele bar. O Neil diz que lhe apertou a mão e não percebeu nada, não percebeu o que se estava a passar. Ele diz que se na altura tivesse percebido o tinha matado, e eu acredito nele. Ele olha para a janela à nossa frente.
– Didn’t see a god damn thing.
Eu olho para as minhas mãos.
  – Estou a sangrar,
digo eu,
– tenho os dedos a sangrar. Isto é normal? É normal isto acontecer? É normal ter os dedos a sangrar? Esta merda dói-me. Esta merda dói-me mesmo. O que é que eu faço? Achas que devo parar? Estou com os dedos a sangrar e nem consigo passar de um acorde para outro como deve ser. Achas que devo parar? Estou cansado, Neil. Quero ir dormir. Achas que devo desistir? Se calhar não sou feito para isto.
Ele não me está a ouvir.
– Vai para casa, Neil. Não é para a tua casa em Cascais, é para a tua casa nos Estados Unidos. O que é que estás aqui a fazer? Tenho os dedos a sangrar por tua culpa. Não me devias ter dito que eu ia ser capaz. Não me devias ter dito que era possível. Devias ficar com os teus alunos de dez anos, eu não vou ser capaz de fazer isto. Achas que vou ser capaz de fazer isto?