A cena começa comigo à varanda. É de noite. Está vento. Estou
a olhar para a direita, para Cascais. Tenho um copo de champagne no parapeito e estou a acender um cigarro. Guardo o
isqueiro no bolso e pego no copo de champagne.
Olho para a direita, para Cascais. Estou em casa, é um oitavo andar. Consigo ver
o céu, o mar, os prédios, a rua. O vento frio incomoda-me mas vou ficar aqui
parado. Parado como alguém que não se consegue mexer. Não é como alguém que não
se quer mexer, é como alguém que não se consegue mexer. Estou a olhar para
direita com um copo de champagne na
mão e um cigarro na outra. Estou de costas e se houvesse uma câmara ela
começaria a afastar-se de mim, devagar. Primeiro sai da varanda, o plano não
muda, sou apenas eu sozinho ao fundo, cada vez mais distante, mostra o quarto
vazio sem se desviar de mim e depois a sala, a mesa com um prato apenas e demasiada comida para uma
pessoa, demasiadas coisas para uma pessoa. Estou sozinho a olhar para a direita, para Cascais. Sou uma figura
ao fundo, na varanda, com um quarto e uma sala entre nós, quase não se percebe que sou eu. Parece que a cena vai acabar porque é
assim que as cenas acabam, com a câmara a afastar-se e a deixar a personagem
sozinha, pequena, como se não tivesse saída, como se ela fosse ficar ali presa
para sempre, a olhar para a direita, a olhar para Cascais. Mas afinal, não. Em
vez de acabar assim, primeiro, as cores no céu, depois, o barulho do
fogo-de-artifício. É meia-noite. As pessoas abraçam-se nas varandas, as pessoas
beijam-se nas varandas. As pessoas estão felizes. As pessoas estão muito
felizes. Eu olho para elas. Estou a olhar para elas e não se consegue perceber
no que estou a pensar. Sou uma personagem misteriosa. Ou então sou apenas uma
pessoa com um copo de champagne numa
mão e um cigarro noutra. Olho para o fogo-de-artifício, para as cores no céu.
As cores do fogo-de-artifício reflectem-se na minha cara. É tudo muito
cinematográfico. Nem sequer uma palavra. Não há uma palavra. Podia dizer qualquer coisa, mas nada há a dizer porque tudo o que era preciso dizer já foi dito. A imagem basta para explicar a
situação.
É a noite de fim de ano e eu estou sozinho em casa. Ouve-se
uma música dos anos 50. As pessoas calam-se porque se houvesse uma câmara estava
fixa na minha cara com a música dos anos 50 em fundo. Olho para o
fogo-de-artifício com as cores a reflectirem na minha cara. Fumo o cigarro.
Bebo o champagne. Olho para dentro de
casa e há um blackout enquanto a
música dos anos 50 continua.quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
JANUS
O que é que se faz depois? Não sei. Não é recomeçar porque
afinal nunca se começou, é só agarrar nas coisas e colocá-las noutro lado, num
armário, num caixote, na arrecadação. É só colocar as coisas num armário, num
caixote, na arrecadação? Sim, é só colocar as coisas num armário, num caixote,
na arrecadação e esperar que daqui a muitos anos quando olhar para elas consiga
dizer,
– ah, que estranho, já não me lembrava disto.
Estás a falar de quê? Estou a falar de coisas que se põem em
armários, caixotes, na arrecadação. Coisas, que coisas? Coisas. Como o quê?
Como um puzzle com a imagem da Torre Eiffel ou um livro sobre antropologia.
Pensava que estavas a falar sobre outra coisa. Não, não estava a falar sobre
outra coisa. Pensei que sim. Não. Lembrei-me de ti no outro dia. Foi? Uma peça
de Beckett. Obrigado. Não é um elogio. Pensei
que era. Não te estou a comparar com Beckett. Claro. Achas que te estava a
comparar com o Beckett? Lembraste-te de mim? Sim. Porquê? O actor estava a ler,
disse,
– adeus ao
depois virou a página do livro que estava a ler, ouviu-se um
silêncio, e depois,
– amor.
Adeus ao amor? Sim. Porque estás a falar disso? Lembrei-me
de ti. Tu sabes que eu não quero falar sobre isso. Apenas me lembrei de ti. Isso nem sequer está em cena. Conheces? Sim. Talvez apenas tenha imaginado enquanto lia. Eu não quero falar de
amor, quero falar sobre puzzles com a imagem da Torre Eiffel e de livros sobre
antropologia. Desculpa. Não te rias. O que é que tens feito? Tenho escrito. O que é que estás a
escrever? Pergunta estúpida. Estás a escrever uma peça. Sim. Uma peça nova?
Sim. Que tal está a correr? Bem. Quando vai estar pronta? Para a semana. Tens a
certeza? Sim. Ouvi dizer que não tens escrito nada, que tens passado os dias
quieto, que não falas com ninguém, que não atendes o telefone, que não dormes
de noite, que foges das pessoas, que apenas sais de casa para comer uma
refeição ou comprar tabaco e que às vezes nem sequer sais de casa. Isso é
mentira, quem é que te disse isso? Ouvi dizer que não deixas que as pessoas se
aproximem, que não queres falar com ninguém, que queres ficar fechado em casa,
a dizer às pessoas que estás a escrever,
– estou a escrever,
mas que não escreves nada, nem vês televisão, nem lês, nem
bebes, nem tentas, nem abres a janela, nem mudas de roupa, apenas te deixas
estar sentado a olhar para a parede. Farto-me de sair de casa e de estar com as
pessoas, até passei os últimos dias em centros comerciais a comprar prendas de
Natal. A sério? Sim. Isso é bom. Muito bom. E que tal? O quê? Como é que estás? Óptimo. Como é que te sentes? Óptimo. Onde é que vais passar o Natal? Em casa. Com quem? Sozinho. Porquê? Estou a escrever uma peça, preciso de me concentrar. Estou a ver. Estás? O que é que
fizeste hoje? Nada. E ontem? Nada. E anteontem? Nada. Pensei que estavas a
escrever uma peça. E estou. Pensei que tinhas passado os últimos dias em
centros comerciais a comprar prendas de Natal. E passei. Está frio. Vou ligar o
aquecedor. Estás a falar de quê? Estou a falar do frio, do aquecedor. Pensei
que estavas a falar de outra coisa. Não, não estava a falar de outra coisa. Desculpa.
Cala-te. O que é que vais fazer? Agora? Sim, o que é que vais fazer agora? Não
sei, talvez comprar prendas de Natal. Acho que a esta hora está tudo fechado.
Então vou dormir. Tens sono? Não. Vais conseguir dormir? Não. Então vais fazer
o quê? Nada.terça-feira, 15 de dezembro de 2015
CRAZY HEART
Ando há três dias para te matar. Três dias são muitos dias.
Não está a ser fácil. Não te matei ontem, não te matei no sábado, não te matei
na sexta-feira. Não és fácil de matar.
Sexta à noite tinha a casa cheia de amigos. Disse-lhes,
– vou matá-la.
E ao contrário do que estava à espera todos acenaram com a
cabeça uns para os outros e depois para mim,
– isso é uma boa ideia,
– até que enfim,
– faz isso.
Um dia depois, o meu agente veio visitar-me. Mais uma
surpresa agradável na minha vida. À tarde tínhamos visto o Crazy Heart e todos concordaram que era muito Miguel Graça. Depois
foram-se embora e chegou o meu agente que se sentou no mesmo sítio onde estava
o David, que disse,
– este filme está a matar-me,
com o mesmo tom de voz com que o meu agente disse,
– sinceramente, já nem sei o que te hei-de dizer.
– Então não digas nada,
disse eu.
Hoje fui comprar uma árvore de Natal. Saí das aulas e fui
para casa. Sentei-me no sofá. Devo ter ficado uma hora ou mais assim, ainda de
casaco e gorro na cabeça. Depois levantei-me e fui comprar uma árvore de Natal.
Quando regressei a casa percebi que me tinha esquecido dos enfeites e que uma
árvore despida num canto da sala ainda ia ser pior. Volto outra vez para trás e acho
que vou ter um ataque de pânico no meio de tanta gente, que vou começar a bater
nas pessoas ou a bater em mim mesmo. Quero sair dali mas consigo comprar luzes,
bolas vermelhas e uma estrela para pôr lá em cima. Volto para casa. Acabo de montar a árvore de Natal e penso que
estou finalmente onde eu sempre quis estar quando era novo. Mas afinal não é
nada de especial. Afinal é uma merda. Se ao menos não tivesse descoberto isso
antes podia viver este momento de outra maneira, podia viver este momento como
uma espécie de epifania, mas não, a redenção não é para mim, para mim apenas
sobra uma árvore de Natal iluminada encostada a um canto, a fingir
(esta é a parte mais difícil)
a fingir que
(esta é a parte mais difícil de admitir)
a fingir que não estou sozinho.
Levanto-me e acendo um cigarro. Passeio pela casa. Vou à
varanda. Não há luzes acesas e está frio. Volto a sentar-me, escrevo,
– vou matar-te,
e vai ser fácil. Podia trocar-te por outra, o meu horóscopo até
diz,
– talvez esta semana conheça alguém que talvez mude a sua
vida,
mas são demasiados talvez, ou podia esquecer-te ou apenas
deixar que te fosses embora. Mas prefiro matar-te, é mais definitivo e não
tenho alma de Petrarca.
Por isso, desculpa, meu amor, estás pronta?
(isto sim, é o mais difícil)
Estás morta.
Assim.
E agora que morreste tudo é mais fácil. Nem sequer estou a
chorar. Claro que vou chorar a tua morte, mas é mais fácil o luto que a
esperança.
Acabou.
Estás morta. Estou curado. Tudo se resolveu. A minha persona está curada e eu posso voltar a
escrever sobre outras coisas que não tu. Tudo acabou em bem e ninguém se magoou.
Estás morta. Foste só um capítulo. Vou continuar. Vou falar
sobre outras coisas que me acontecem,
como árvores de Natal, filmes que vemos nas tardes chuvosas de sábado e visitas
do meu agente enquanto se queixa que eu não vendo nada. Vou falar sobre muita
coisa, mas não volto a falar de ti porque morreste e os mortos devem ficar
quietos, sem que alguém os queira renascer.
Sinto-me bem. Se as coisas fossem tão fáceis na vida como na
ficção já te tinha matado há mais tempo.
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
HONEYBEAR
Os feriados são dias
complicados. Não é que todos os dias não sejam complicados, mas os feriados são
diferentes, como um permanente desconforto de quem não sabe onde está, como um
estrangeiro no próprio país.
Acordei às 10h30 e comecei
por me insultar por me ter esquecido de pôr o despertador e agradecer-me por ter
conseguido acordar sem ajuda sonora. Tomei banho, fiz a barba, vesti-me. Às 11h00,
à porta de casa, lembrei-me que é feriado e que à terça-feira nem sequer tenho
aulas às 11h00. Voltei para a cama e adormeci.
Às 13h00 telefonaram-me com
boas notícias. Acordei. Passei as mãos pela cara. Fui ao facebook e fiz
uma piada. Não gostaste da piada. Descobri que estás chateada comigo. Fui para
a sala. Pensei,
– não tenho fome, não tenho
mesmo fome, hoje não vou comer.
Liguei a televisão. Estou a
rever o Anjos na América, passou na Fox Mulher no meu dia de anos. Estou
no segundo capítulo. Estava à procura de um filme qualquer que tivesse passado durante
a semana e encontrei sem querer os seis episódios. Tinha-te acabado de dizer que
esperava que não ficasses chateada comigo muito tempo, que apenas pensar nisso
dava cabo de mim, quando ouvi o Roy Cohn a dizer ao Joe Pitt,
– o amor é uma armadilha,
enquanto olhava para o
telemóvel à espera da tua resposta que sabia que não havia de chegar.
Pensei pôr o cobertor por
cima de mim e deixar-me ficar deitado no sofá até ter fome. Lembrei-me de um
artigo que li ontem sobre seis formas de detectar a depressão e lembrei-me que
nenhuma delas referia cobertores e sofás. Depois olhei para o Al Pacino e
pensei no que a Eunice me disse há uns anos,
– não te transformes num cínico.
Levantei-me e fui almoçar.
Fui a pé. Por estes dias ando com o Father John Misty nos ouvidos. Não ouço
mais nada e pareço a personagem da Madalena, sempre assim, com os phones
nos ouvidos. Gosto dele. Gosto de como transforma a felicidade em melancolia,
gosto de como parece haver sempre um passo em falso que vai destruir tudo, e de
como, apesar disso, ele parece tão feliz. Levei o Alain de Botton debaixo do
braço que o Victor me deu no sábado. Sentei-me e pensei,
– pede um bife, Miguel,
e pedi um bife.
Comi contrariado, mas comi
tudo. Não quis sobremesa. Pedi um café
(cheio)
e peguei no Botton. Veio o
café. Não sei se os empregados me dizem alguma coisa porque tenho o Father John
a gritar aos meus ouvidos –
– maybe love is just an economy based on resource scarcity,
o wiko merda, o meu
telefone, agora nem me deixa baixar o som, acho sempre que estou a incomodar as pessoas com o barulho dos phones mas até é uma analogia
interessante com a minha vida, sempre no máximo – mas eu digo sempre,
– obrigado,
quando me trazem o café ou
o bife.
Estou a ler o primeiro capítulo.
– «Em conversas, a minha
prioridade era que gostassem de mim, muito mais do que dizer a verdade».
Quis fumar um cigarro e
tinha o tabaco na cadeira em frente, dentro do casaco. Ergui-me para ir buscar
o casaco. Quando regresso, o Father John Misty fica preso à chávena de café e o café vai para
cima da mesa, do Botton, do wiko merda e das calças.
– É uma bela metáfora para
a minha vida.
– Diga?,
diz o empregado.
– Outro café
(cheio).
Levanto os olhos e vejo-te
parada, ao longe, à espera do autocarro. O que é que estás a fazer aí parada à
espera do autocarro? Que raio estás tu a fazer à espera do autocarro? A não ser
que não sejas tu, ultimamente vejo-te em todo o lado, na rua, na mercearia, no
outro dia até te vi em minha casa. Estavas sentada à minha frente e estávamos a
conversar. Sei que não és tu, mas continuei a conversar porque talvez fosses
tu. Talvez fosses mesmo tu e talvez seja por isso que estejas chateada comigo. Sei
que não és tu mas peço a conta e vou ter contigo à paragem do autocarro. Desta
vez não és mesmo tu e por isso ela que não és tu diz,
– estás a olhar para onde?
Eu peço desculpa e continuo a andar até casa.
Está a escurecer
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
FANTASMAS
O Ling tem 9 anos e tanta
inconsciência do mundo como qualquer outra criança da idade dele. Tudo o que se
afasta mais do que uns centímetros do umbigo lhe é indiferente, e assim, apesar
de quase todas as semanas falarmos um com o outro, nunca me perguntou o nome,
nem se estava bem, nem se precisava de alguma coisa, apenas me abre a porta com
um sorriso de quem tem 9 anos e diz,
– boa noite.
Os pais do Ling vieram para
Portugal há quase 20 anos e na zona da Av. de Roma foram dos poucos ou talvez
os únicos que se mantiveram por cá. Acho que teve a ver com aquela história de
um velho chinês que encontraram cortado ao meio dentro de uma arca frigorífica
com a boca aberta e os braços para cima como se pedisse socorro. Depressa
surgiram os boatos que não havia chineses nos cemitérios portugueses porque iam
todos parar ao chop suey, e daí até à recessão foi um curto passo.
Os pais do Ling, mais duas
tias, uma delas casada, conseguiram sobreviver e sempre que é a minha vez de
comprar o jantar de família vou ao Bom Garfo encomendar a comida e é assim que vou
vendo o Ling a abrir-me a porta, e a dizer,
– boa noite,
orgulhoso da competência
com que executa a tarefa depois das aulas, com um sorriso de 9 anos tão grande
como sincero.
É sempre bom ser
reconhecido. Eles são genuinamente simpáticos e ao contrário do que acontece
noutros sítios nunca achei que me insultavam enquanto falam em mandarim entre
eles. Peço sempre o mesmo. Pago. E depois digo que vou beber uma cerveja ali sentado
na mesa. Peço uma imperial e dão-me uma cerveja de garrafa, dizem que é o mesmo
preço e que tem mais. Eu agradeço. Eles agradecem e dizem que não vai demorar
muito. Eu sento-me. Afasto-me um pouco da mesa, cruzo a perna e digo a mesma
piada,
– ainda não se pode fumar,
pois não?
– o senhol é que devia
deixal de fumal.
Eu rio-me. Eles riem.
– Talvez em breve. Quem
sabe?
Depois o Ling aproxima-se.
– Olá.
Temos sempre a mesma
conversa, ou pelo menos sobre os mesmos assuntos. Eu pergunto-lhe como vai a
escola. O Ling diz que é o melhor da turma. Eu digo-lhe que estudar é importante.
Depois pergunto-lhe pelas namoradas (o número de namoradas do Ling é variável,
mas é sempre mais do que uma), e há sempre uma história estranha que me faz
rir, ou foi uma delas que bateu no Ling, ou foi o Ling que chamou feia a uma
delas e a pôs a chorar.
– Mas gostas dela?
– Sim,
diz o Ling com o sorriso de
9 anos.
– E já lhes disseste que são
namorados?
(acaba sempre assim, a
conversa)
– Não,
diz o Ling sem o sorriso de
9 anos,
– para quê?
– Tens de dizer-lhe, Ling. Tens
de dizer-lhe que gostas dela. Se lhe disseres que gostas dela
(depois calei-me)
Não sei por que razão me
calei. Isto foi na sexta-feira. O Ling ficou a olhar para mim e eu fiquei a
olhar para o Ling, os dois em silêncio, os dois perdidos, sem saber o que
dizer.
– Quem é que morreu?,
perguntou ele.
– Estás tão triste. Quem é
que morreu?
E acho que só não comecei a
chorar porque não ia começar a chorar à frente de uma criança de 9 anos, porque
pessoas como eu não choram à frente de uma criança de 9 anos, pessoas como eu não
choram à frente de ninguém. Por isso, sorri.
– Fui eu, Ling. Fui eu que
morri.
Ele nem sequer pareceu
surpreendido.
– És um fantasma?
– Sim, Ling. É isso mesmo. Sou
um fantasma.
– É por isso que estás
sempre sozinho?
A comida estava pronta. A mãe
do Ling disse para o Ling me deixar em paz. E eu ao contrário do que é costume
não disse que ele não incomoda nada. À saída lá estava o Ling com a porta
aberta à minha espera. Ergueu a palma da mão no ar e eu depois de hesitar, disse,
– hi-5
e bati com a minha na dele.
– És um fantasma bom,
disse ele,
– diz-lhe
que gostas dela,
disse ele.
E eu disse.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
LABIRINTO
Estou a entrar naquela fase da vida em que se começa a perder tudo. Perdi
o meu instinto, perdi a minha alma, perdi os meus amigos, perdi o meu amor, perdi
o meu sorriso, perdi o meu humor e agora começo a perder a vontade de fazer as
tarefas mais básicas como comer, dormir ou fazer a barba.
Parti a guitarra do Bruno. Ele ainda não sabe. Foi há bocado. Mas
tinha-lhe dito que isso talvez acontecesse. Ele disse-me que desde que me
fizesse sentir melhor, que ele não se importava. Só partiu à terceira. Está ali
feita em bocados no meio do chão. Nem sequer tenho vontade de ir buscar a
vassoura e a pá. Era a guitarra preferida dele. Deu-ma no final do se eu não
fechar os olhos, esteve encostada à parede desde aí, mesmo ao meu lado,
onde me costumo sentar. Não me estou a sentir melhor. Estou na mesma. Tocaram à
porta uns dois minutos depois. Era a minha vizinha de baixo a perguntar se
estava tudo bem. Eu pedi desculpa, disse que tinha deixado cair uma chávena de
café. Ela olhou para mim.
– E o cinzeiro, também deixei cair o cinzeiro.
Ela voltou a perguntar se estava tudo bem e eu disse que sim, que
estava tudo bem. Fechei a porta e voltei a sentar-me.
Estou com vontade de viajar. Não sei para onde. Ainda há dois dias
disse que não ia escrever aqui durante uns tempos e afinal continuo a escrever
aqui. Talvez para um sítio quente, ou então talvez apenas pegue no carro e ande
por aí às voltas umas centenas de quilómetros até encontrar um local isolado
com ar acolhedor. Talvez haja um salão com uma lareira e eu me sente à lareira
e pense no quão longe estou de casa.
Continuo a encontrar bilhetes anónimos nos lugares mais diferentes, na
carteira, na caixa do correio, nos bolsos do casaco, dentro do maço de tabaco.
Hoje tinha espetado na janela do carro um,
– RI-TE MIGUEL
sem vírgula nem elegância, escrito nas costas de um daqueles anúncios
que deixam nos limpa pára-brisas e que são sempre uma variante de,
– oportunidade única.
Mas vou rir-me de quê? Vou rir-me de mim próprio? Porque isso já fiz,
já fiz durante muito tempo e já perdeu a piada. É como ouvir a mesma anedota várias
vezes. Às tantas dizemos a quem a está a contar que já a ouvimos e que sabemos
como acaba. E as anedotas acabam sempre mal para alguém. Como aquela em que um
homem está à frente de um casino a chorar com uma caixa à frente dele. Passa
outro homem que lhe pergunta se ele está a chorar porque perdeu no casino.
– Sim.
O outro homem vai perguntando quanto é que ele perdeu. Mil? Dez mil?
Cem mil? Um milhão?
– Mais,
diz o homem que chora.
– Se eu perdesse mais de um milhão no casino, a minha mulher
arrancava-me o coração.
E depois o homem que chora olha para o outro homem e diz,
– o que é que acha que está dentro da caixa?
Não me estou a rir. Talvez não seja assim que acabe. Talvez apenas não tenha graça. Talvez não seja uma anedota.
Não me estou a rir. Talvez não seja assim que acabe. Talvez apenas não tenha graça. Talvez não seja uma anedota.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
ESCREVER ATÉ MORRER
Este é o último texto que vou escrever
durante muito tempo. Não é o último texto que vou escrever durante muito tempo,
é o último texto que vou escrever aqui durante muito tempo. Vou continuar a
escrever, vou obrigar-me a escrever mesmo que tudo o que escrevo me pareça mau.
Escrevo e deito tudo para o lixo. Tenho o cesto cheio de papéis. Tenho sacos
cheios de papéis à espera que eu os leve para o contentor. Tenho o chão cheio
de papéis. Tenho a casa cheia de papéis que atiro para o chão. Quando me irrito
apanho-os e atiro-os para dentro de um saco plástico. Tudo se amontoa pela
casa. Parece que vou morrer sufocado num monte de papéis. Já nem desligo a música
nem os candeeiros. Apenas ando pela casa, aos pontapés aos papéis que se
amontoam pelo chão, a acender cigarros para encontrar outros encostados aos
cinzeiros. Desliguei o telefone. Desliguei-me das pessoas. Às vezes durmo no chão.
Acordo no chão sem saber onde estou.
– As coisas não estão fáceis, Miguel,
digo em voz alta enquanto olho para o
tecto. Estou deitado no tapete. Afastei a mesa e deitei-me no tapete, debaixo
da mesa não há papéis. Lembro-me da minha médica hoje,
– o Lexapron não funcionou, o Prozac não
funcionou, o Zoloft não funcionou, o Proximax não funcionou e o Seroxat não
funcionou.
São nove e meia da manhã. Dormi duas
horas. Ontem dormi três. Não sei como consegui acordar.
– Sabes que Descartes morreu porque a
rainha Christina da Suécia o obrigava a dar-lhe aulas às cinco da manhã?,
digo eu.
– Cala-te, Miguel. Isto é sério.
Ela está de mau humor. Deve estar com o
período.
– Sabes uma coisa, é normal que as
pessoas te chamem misógino.
– Eu disse aquilo em voz alta? Pensava
que estava a pensar.
– Miguel, acorda, isto não é uma daquelas
coisas em que tudo acaba por acabar bem por muito mal que as coisas corram.
Estamos a falar da tua vida.
Depois começa a estalar os dedos à minha
frente.
– Estás a ouvir-me?
Olho em volta enquanto ela olha para mim.
– Estou aqui,
diz ela.
– E Descartes morreu de pneumonia. Pára
de achar que toda a gente é estúpida,
diz ela.
Depois pergunta-me o que é que tenho
feito. E depois eu digo-lhe que tenho tentado escrever, que tenho deitado papéis
para o chão e que talvez uma vez ou outra tenha passado à porta de tua casa
para fumar uns 20 ou 30 cigarros.
– Uma vez ou outra?
Eu olho para a janela atrás dela. Não
vejo o Sol. Só vejo o céu encoberto e as nuvens. Tento encontrar uma forma
qualquer nas nuvens, uma qualquer, mas é tudo tão uniforme que só consigo ver
uma massa cinzenta que não acaba.
– Não, não é uma vez ou outra. São todos
os dias. E acho que ela nem sequer lá está.
A minha médica olha para mim. Eu estou a
olhar para o tecto deitado no tapete. Vim para casa.
– Pára com isso. Segue em frente,
disse ela.
– Para onde?,
disse eu.
Estou deitado no tapete. Estou a olhar
para o tecto. Estou a pensar que a vida é um sítio cheio de papéis que se
amontoam pelo chão. Estou a pensar que tenho de parar de escrever para começar
a escrever. Estou a pensar que sinto a tua falta. Estou a pensar que não posso
morrer assim, deitado num tapete a pensar em ti. Estou a pensar que tenho de me
levantar daqui, que tenho de me levantar daqui antes que morra.
– Levanta-te
antes que morras, Mike,
ouço-me dizer,
– acredita no que todos te dizem, ela não te merece.
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